A estratégia utilizada pela empresa britânica de dados Cambridge Analytica na eleição presidencial dos Estados Unidos em 2016, que a companhia alega ter sido decisiva na vitória de Donald Trump, foi revelada em um documento divulgado nesta sexta-feira (23) pelo jornal britânico The Guardian.


O veículo teve acesso a uma apresentação digital de 27 páginas que a CA exibia a clientes para mostrar como funcionou o trabalho de campanha para Trump em plataformas como Google, Snapchat, Twitter, Facebook e YouTube.



O conteúdo em si não revela nenhuma atividade ilegal, mas nesta semana também foi revelado que dados de 50 milhões de usuários de Facebook foram utilizados pela Cambridge Analytica para elaborar as ferramentas da campanha.


Ex-funcionária


Uma ex-funcionária da Cambridge Analytica, Brittany Kaiser, confirmou ao Guardian que o documento era apresentado a clientes em potencial nos escritórios de Londres, Nova York e Washington.


“Esse é o relatório da campanha digital do senhor Trump. Todos queriam saber como tínhamos conseguido vencer a eleição. Esse documento era o que nós tínhamos permissão para mostrar aos clientes, desde que eles assinassem um termo de confidencialidade”, conta Kaiser, que deixou a empresa há duas semanas.


Segundo ela, nos meses da campanha, os dados da Cambridge Analytica foram usados para distribuir de maneira selecionada cerca de 10 mil anúncios diferentes para eleitores norte-americanos de maneira personalizada, utilizando pesquisas, modelagem de dados e algoritmos. A apresentação da CA afirma que os anúncios foram vistos bilhões de vezes.


Kaiser é a segunda ex-funcionária a vir a público em menos de uma semana. Ela afirma ter trabalhado intensamente durante a campanha do referendo que definiu o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.


Ela não trabalhou na campanha de Trump, mas afirma ter recebido informações sobre a estratégia durante reuniões com funcionários mais graduados, incluindo o chefe-executivo Alexander Nix, atualmente suspenso por causa de denúncias divulgadas pela emissora britânica Channel 4, no início da semana.


Começando do zero


O documento afirma que, em junho de 2016, quando a Cambridge Analytica subiu a bordo da campanha de Trump, o comitê estava em situação desastrosa. Não havia infraestrutura nem nenhum tipo de unificação de dados ou estratégias.


“Não havia nem mesmo um banco de dados. O pessoal que trabalhou na campanha ficou chocado, não havia equipe definida de marketing digital, tudo estava uma bagunça”, afirmou a ex-funcionária.


A Cambridge Analytica utilizou dados do Facebook, mas o documento não especifica se os 50 milhões de perfis obtidos em 2014 foram utilizados. O que havia, de fato, era um extenso monitoramento de diversos perfis de eleitores, praticamente em tempo real.


Isso permitiu à companhia adaptar, de maneira muito rápida, as peças de campanha e os algoritmos de pesquisa para entregar as mensagens mais adequadas a cada perfil de eleitor.


Estratégias digitais


Um exemplo de como a CA utilizava esses dados aconteceu no dia da eleição, com um dos espaços mais nobres da propaganda digital, o cabeçalho da página inicial do YouTube.


A campanha de Hillary Clinton tinha reservado o cabeçalho, mas ficou tão confiante na vitória que desistiu e cancelou a compra. “A Google ligou e disse que o espaço tinha acabado de ficar disponível. Foi o que me contaram”, disse Kaiser.


Os analistas de Trump aproveitaram a oportunidade, e usando informações geográficas dos visitantes, colocou dois anúncios diferentes para dois tipos de perfis de eleitores.


Aqueles localizados em áreas onde o apoio a Trump era naturalmente forte, viam um banner com uma imagem do candidato em pose triunfal, ao lado de um campo de busca para encontrar a seção eleitoral mais próxima.


Os eleitores de áreas onde Trump precisava crescer receberam anúncios com fotos de celebridades que apoiavam o republicano, como sua filha, Ivanka Trump, e Dana White, presidente do Ultimate Fighting Championship (UFC).


Buscas direcionadas


Outra tática exibida nos slides mostrava como a CA usava anúncios no Google para direcionar resultados de buscas e exibir conteúdos pró-Trump e contra Hillary através do mecanismo principal de buscas do site.


Um slide mostrava como a companhia garantia que pessoas buscando pelas palavras “Trump Iraq War” (“Trump Guerra Iraque”), recebiam como primeiros resultados sites de grupos apócrifos afirmando que “Hillary votou a favor da guerra e Trump se opôs”. Desse modo, segundo a CA, era possível controlar a primeira impressão dos eleitores.



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