Estreou no último fim de semana no Brasil o filme “Uma Dobra no Tempo”, que assisti nos Estados Unidos com meus filhos mês passado. As críticas por lá não foram das melhores, do que discordo.

Esse não é um filme típico para crianças de hoje, que serve, também, aos interesses dos adultos que as levam ao cinema. Esses filmes são ótimos, claro, especialmente para os adultos, que se divertem com piadas e menções a fatos que os mais jovens desconhecem. Penso, por exemplo, no “Uma Aventura Lego”.

“Uma Dobra no Tempo” sai desse molde, um filme produzido para jovens de uma certa idade, especialmente pré-adolescentes e adolescentes que enfrentam os desafios de se estabelecer como indivíduos num ambiente social competitivo, problema complicado por uma torrente de hormônios contribuindo para a sua confusão existencial. Crianças menores talvez achem o filme meio lento, enquanto adultos provavelmente irão achá-lo meio infantil. Se você pertence a esse último grupo etário, sugiro ir ao filme com a cabeça que você tinha na adolescência.

A narrativa é bem simples, combinando ficção científica com elementos de épicos tradicionais, onde o herói (no caso, a heroína) vai se descobrindo à medida que enfrenta seus demônios internos e um monte de outros externos. (E não é essa a luta da maioria dos adolescentes?) Nossa heroína é Meg Murry (Storm Reid), filha de um casal de físicos famosos. Ela é acompanhada em sua jornada pelo seu irmão gênio de seis anos, Charles Wallace (Deric McCabe), e por seu (único) admirador da escola, Calvin (Levi Miller). O pai (Chris Pine) é um astrofísico, cuja pesquisa aborda a força da gravidade e sua ação no universo; a mãe (Gugu Mbatha-Raw), trabalha em física quântica, pesquisando átomos e partículas subatômicas, como elétrons e prótons.

O casal representa, mesmo que simbolicamente, o único exemplo bem-sucedido da junção da física quântica e da gravidade, um dos desafios da física moderna.

Os cientistas descobrem um método para viajar através do espaço usando apenas a mente, chamado “tecelagem”. O segredo, aparentemente, é encontrar a frequência que sintoniza a mente com o resto do universo. Quando em sintonia, o espaço e o tempo dobram, e a pessoa pode viajar, quase que instantaneamente, até mundos distantes. 

O filme “explica” rapidamente a ciência como sendo produto de um efeito conhecido como emaranhamento quântico —quando duas ou mais partículas são preparadas num estado conjunto que estabelece uma relação entre elas que persiste mesmo a enormes distâncias (feito amor de mãe e filho...)— e da gravidade em situações extremas. Obviamente, a comunidade científica considera o casal insano. Como que a mente pode abrir portais no espaço-tempo?

São passados quatro anos desde o misterioso desaparecimento do Dr. Murry, o pai da Meg. A narrativa vai se desdobrando em meio a efeitos especiais e imagens espetaculares, às vezes um pouco espetaculares demais. Mas antes de criticar a visão da diretora Ava DuVernay, é bom lembrar que filmes modernos têm que competir com videogames e aparelhos de realidade virtual para conquistar a atenção da moçada mais jovem. A história é mágica, e os personagens também são mágicos, imersos numa realidade fantástica. É bem verdade que as três emissárias cósmicas da luz, a sra. Qual (Oprah Winfrey), a sra. Quem (Mindy Kaling) e a sra. Qualé (Reese Whiterspoon), são aparições um tanto exageradas. Mas como representar tais criaturas para uma audiência de 2018? (O livro foi publicado em 1962.) O equivalente, já de quase 80 anos atrás, seria a boa fada Glinda de “O Mágico de Oz”, também incrível para o seu tempo. (E ela também flutuava, tal como as nossas três senhoras o fazem.)

Gostei muito de ver o filme abrindo com uma cena do dr. Murry mostrando para sua filha Meg como que um sistema físico compostos de grãos de areia, quando sintonizado na frequência correta, pode criar padrões ordenados belíssimos. A analogia com a tecelagem é clara: para viajar através do espaço, temos que encontrar os padrões vibracionais do próprio espaço e ressonar com eles na mesma frequência. Essa ressonância representa a união entre a mente e o Cosmo.

Pesquisei durante anos (e continuo ainda) sistemas que chamei de “oscilons”, cujo comportamento inesperado emerge justamente devido a uma combinação precisa de frequências vibratórias e forças atuando entre seus componentes. (Descrevo essas entidades em linguagem acessível no meu livro “A Simples Beleza do Inesperado”. Ao contrário do efeito de tecelagem do filme, oscilons não são produto de efeitos especiais, e mostram o quanto ainda temos que aprender sobre sistemas com comportamento complexo. (O leitor interessado nos aspectos mais técnicos da pesquisa pode consultar essa referência aqui e aqui).

Sendo um épico, nossa heroína deve enfrentar o mal para concluir sua missão. Meg tem sua grande batalha final contra um espírito maligno (“o mais maligno do universo”), responsável pelo desaparecimento de seu pai. Esse espírito, um atormentador de proporções cósmicas, tem a habilidade terrível de identificar e explorar as vulnerabilidades emocionais das pessoas para, então, destruí-las.

É aqui que o público-alvo do filme se identifica com a Meg. Eles vivem num mundo de turminhas, muitas delas em guerra entre si, esperando pelo primeiro que baixar a guarda para atacar. Derrotar o atormentador cósmico é a maior das redenções, com consequências catárticas. Quando o filme terminou, meu filho de 11 anos aplaudiu de pé.

Precisamos de mais filmes como “Uma Dobra no Tempo”, misturando ciência, fantasia e protagonistas femininos. Num tempo em que nosso país sofre com divisões e injustiças sociais terríveis e, por outro lado, fica cada vez mais difícil atrair mulheres e minorias para uma carreira científica— mostrar o lado mágico da ciência nos ajuda a abrir portas para o que é possível e belo, mesmo que seja no mundo real.



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