Já era o quarto dia de jejum e o ano era 2010. Ezequiel Vedana estava decidido a voltar a comer somente quando tivesse uma ideia brilhante para um novo negócio. Quem poderia imaginar que a inspiração seria o vaso sanitário?

O período de jejum era uma forma de obter inspiração divina para essa nova etapa de sua vida. Vedana, que chegou a ter uma empresa de criação gráfica e webdesign, queria mudar sua trajetória. A epifania —não religiosa, mas tecnológica e ecologicamente correta— ajudaria a economizar milhões de litros de água que vão, literalmente, descarga abaixo.

A forma mais comum de economizar água usada em vasos sanitários até então era a adoção de modelos novos de descarga, que gastam 3 ou 6 litros de água, dependendo se o produto é líquido ou sólido, em vez de formatos antigos, como aquelas caixas suspensas acionadas por cordinhas, de 10 ou 15 litros por descarga.

Para Vedana e seus colegas (um deles sua esposa, Ariane Pelicioli da Rosa), a economia com os vasos ecológicos era pouca. Eles queriam uma solução que beirasse os 100% de economia de água. Nascia, então, a ideia do Piipee (pronuncia-se pipe).

O plano era elaborar uma solução que, em contato com a urina no vaso sanitário, neutralizasse algumas de suas características marcantes como o odor e a cor. A urina fica no vaso, imperceptível, sem necessidade de descarga.

Os testes levaram os empreendedores a uma formulação essencialmente natural, composta basicamente de extratos de plantas e bicarbonato de sódio.

Também tiveram de pensar em um dispositivo, um tipo de dispenser da solução, que pudesse ser acionado sempre que o número um fosse feito. Para ambientes menores, um borrifador comum resolve o problema. De quebra, o Piipee também perfuma o ambiente.

Em empresas de médio e grande porte, é preciso instalar um dispositivo no vaso sanitário ou mictório que custa, respectivamente, R$ 79,90 e R$ 84,80. O investimento pode soar alto, mas o ponto forte do sistema é o preço do refil. São R$ 24,90 por 500 ml, R$ 49,90 por 1.000 ml e 249,90 por 5.000 ml. Como é usado apenas 1 ml por aplicação, a “dose” que substitui uma descarga custa R$ 0,05.

E qual seria o preço comum de uma descarga sem Piipee? Varia de região para região no Brasil e pode ir de R$ 0,06 a R$ 0,35, sendo mais cara quando há pior infraestrutura e/ou estresse hídrico.

Em São Paulo, para comércios e indústrias que usam muita água (acima de 50 m³), cada metro cúbico (o equivalente a 1.000 l) sai por R$ 37,68, já contando o preço pelo fornecimento e pelo serviço de esgoto.

Ou seja, nessas condições uma descarga (vamos supor ecológica, de 3 litros, para urina), custa R$ 0,11.

Resultado: uma grande indústria ou comércio com 1.000 funcionários que acionem a descarga uma média de duas vezes por dia para descartar o xixi poderia economizar R$ 2.640 ao mês. A economia de água é de 132 mil litros por mês. 

“Quase ninguém sabe quanto custa uma descarga. Quase ninguém sabe quantos litros de água são gastos, tampouco quanto custa o litro de água consumido em casa. Quando descobrem, as pessoas ficam assustadas”, diz o empresário.

Em um dos estabelecimentos que já testou o Piipee, um restaurante de Brasília, a conta de água foi de R$ 4.172,52 para R$ 2.720,52 após quatro meses de uso.

Por causa de impactos como esse, a empresa ganhou mais de uma dezena de prêmios importantes e reconhecimentos internacionais. A ideia é reconhecida com uma inovação global para o clima pela WIPO (Organização Mundial de Propriedade Intelectual, na sigla em inglês) e já representou o Brasil em reuniões de cúpula sobre o clima.

Entre as companhias que já testaram a modalidade estão a Braskem, parceira do projeto, o banco Itaú, a Whirpool, as lojas Renner e o Grupo Abril.

A primeira produção em escala funcionou em um formato semelhante a um financiamento coletivo. A empresa vendeu o produto, mas prometeu entregá-lo apenas 60 dias depois. 

Para o orgulho de Vedana, a empresa conseguiu produzir e entregar esse primeiro lote de Piipee em apenas 30 dias. Em suas contas, já foram economizados cerca de 8 milhões de litros de água com a invenção.

Vedana, que não revela o faturamento da empresa, afirma que ela quase quadruplicou de tamanho entre 2016 e 2017, e que 2018 promete faturamento recorde, pelos dados parciais. Ele está em busca de parcerias internacionais e recentemente foi à África do Sul com esse intuito.

Em breve, diz ele, o Piipee pode ganhar uma linha de venda direta —como acontece em empresas do segmento cosmético como Natura e Avon. Ou seja, uma pessoa física poderá revender o dispositivo para outras.



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