Adho mukha. Chaturanga. Uttanasana. Essas palavras se tornaram parte do vocabulário das penitenciárias argentinas, graças a um grupo de jovens instrutores de ioga que criou o projeto “Moksha – ioga na cadeia”.

Em um dia ensolarado, no pátio da 48ª Unidade Penitenciária da penitenciária estadual de San Martín, em Buenos Aires, ouve-se frases como “mãos ao centro do coração”, “abram bem o peito”, “posição cobra” e “expire na transição para a lua crescente”.

Seguindo essas instruções, 30 presidiários, descalços e de olhos fechados, tentam silenciosamente imitar a postura que a instrutora, Milagros Colombo, demonstra gentilmente. Por trás deles vê-se um mural multicolorido pintado por alguns dos prisioneiros, com objetivos específicos em mente. Gratidão, força de vontade, paciência, persistência, responsabilidade, liberdade e paz são algumas das palavras que eles pintaram.

“Durante as duas horas da aula, você esquece os problemas. Fazemos a postura da prancha, cachorro olhando para baixo, chaturanga, e terminamos nos sentindo aliviados, relaxados. Você se sente livre fazendo ioga, deixa o mundo por duas horas. A sensação de liberdade é tão intensa que você não quer que a aula termine”, diz Lucas Roldán, 33, que está encarcerado na penitenciária há oito anos.

Como ele, 250 presidiários participam das aulas de ioga que o grupo Moksha organiza desde 2015 em duas unidades da prisão de San Martín, com o objetivo de transformar vidas, agora e no futuro. A ideia nasceu do desejo dos instrutores de compartilhar dos benefícios da ioga com os mais vulneráveis.

“Todos nós, instrutores, vivemos e respiramos a ioga, e ela é um tesouro tão precioso para nós que sempre perguntamos de que maneira poderíamos compartilhá-la”, disse Colombo, 29. “O setor penitenciário é negligenciado de muitas maneiras. Assim, se esses homens puderem aproveitar ao máximo o seu tempo na penitenciária, terão mais oportunidades quando saírem e todos teremos vizinhos melhores.”

A penitenciária é um estudo em contrastes. Trancas, grades, cercas com pontas metálicas e guardas uniformizados formam o panorama esperado de um presídio, mas o lugar é ordeiro, com grandes e bem cuidados jardins que criam uma sensação inesperada de paz. Os presidiários cumprimentam os voluntários do Moshka, de dentro de suas celas, quando eles passam pelos corredores, mas nem mesmo apertos de mão são permitidos.

Roldán sabe que a ioga mudou sua vida. Por isso, ele aguarda ansiosamente a aula, realizada a cada quinta-feira. Há manhãs em que ele e outros presidiários se juntam para praticar as posturas. “É muito mais agradável, nesse horário, porque se pode ouvir os pássaros. As pessoas muitas vezes pensam o pior de nós por termos sido presos por roubo ou por matar um policial. E talvez elas pensam que merecemos ficar nesse lugar, apodrecendo. Eu consegui promover uma mudança profunda em minha vida aqui”, diz.

Roldán é parte de um grupo de prisioneiros de segurança máxima que às vezes acompanham os voluntários do Moksha às aulas de ioga em pavilhões de segurança média. Lá, eles encontram criminosos sexuais, que têm reputação especialmente ruim entre seus colegas presidiários. “Foi outra porta aberta. Isso é reintegração, como disse o Papa Francisco. Não devemos discriminar, somos todos humanos. Quando me convidaram, eu não hesitei. Somos todos prisioneiros, eles têm os seus problemas, nós temos os nossos. Porque recebemos uma oportunidade, queríamos lhes dar uma oportunidade”, diz Roldán.

O projeto continua a crescer, com novos pavilhões solicitando acesso às aulas, entre as quais a Unidade 47, um pavilhão feminino.

Gabriel Márquez Ramirez, 24, é apaixonado por ioga. “Dois anos atrás, os instrutores chegaram para nos ensinar sobre a filosofia que embasa a ioga, e seu impacto positivo. Pratico todos os dias, porque gosto. Ela ajuda a pessoa a manter seu centro, a relaxar, a deixar de lado os pensamentos negativos, serve ao corpo e à mente igualmente. Amo a ioga”, diz o presidiário, acrescentando que no futuro espera se tornar instrutor. “Ela purifica o corpo e a mente, você aprende a se nutrir melhor e se torna uma pessoa melhor. Aqui, a atmosfera mudou completamente.”

No momento, 20 instrutores trabalham como voluntários no projeto Moksha, que está batalhando para se qualificar como organização sem fins lucrativos. Por enquanto, ele é bancado inteiramente por doações privadas, e há planos de expansão.

“A ioga traz muita conscientização, e a possibilidade de estar presente em corpo, respiração e mente é libertadora. [Em sânscrito], a palavra moksha quer dizer liberdade interior por meio da presença. A ioga nos liberta do estresse, cria paz de espírito e nos ajuda a experimentar um momento de presença, para que possamos decidir como agir, falar, pensar e reagir. É esse o nosso objetivo”, diz Colombo.

O sonho dela é, um dia, trabalhar exclusivamente com aulas em prisões, fazendo dessa atividade a sua profissão. “Tudo deriva de um senso de vocação”, ela diz, “e precisamos de mais apoio para fazer com que o projeto cresça. Também adoraríamos criar um programa de treinamento na prisão para que presidiários possam se tornar instrutores, e mais tarde trabalhar conosco quando forem libertados, como forma de reintegração social. Com a experiência que têm, seria fácil para eles ensinar em novas prisões, como prova viva do que pode ser realizado quando você escolhe viver de maneira diferente”.



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