Nas coleções do Museu Nacional mais atingidas pelo incêndio de domingo (2)  —as de invertebrados, paleontologia e antropologia—, cada item é insubstituível, dizem pesquisadores.

“Nenhum arquivo digital, molde, fotografia, imagem tomográfica pode tomar o lugar do que foi perdido”, resume a bioantropóloga Mercedes Okumura, que coordena o Laboratório de Estudos Evolutivos e Ecológicos Humanos da USP e trabalhou no Museu Nacional até junho. “Podemos fazer mais trabalho de campo e coletar novos espécimes, mas eles nunca vão substituir as coleções originais.”

Em áreas como essas, é praticamente impossível recuperar todos os detalhes informativos de um espécime físicos por meios virtuais. Além disso, itens de museu bem preservados permitem estudos detalhados de composição química ou mesmo genética, coisas que um objeto escaneado, ou mesmo reproduzido numa impressora 3D, não é capaz de proporcionar.

Do acervo de cultura indígena do museu, grande parte de documentos importantes do etnólogo alemão Curt Nimuendajú e as gravações do antropólogo brasileiro Edgar Roquette-Pinto permaneceram intactas, pelo menos virtualmente, graças a iniciativas de digitalização, segundo Carlos Fausto, pesquisador do Museu Nacional. 

 

Ainda não é possível estimar o volume da perda, mas Edmundo Pereira, chefe do departamento de antropologia do Museu Nacional, afirma que há grandes chances de que os itens de culturas africanas, americanas e asiáticas tenham sido destruídos.

 

As coleções etnográficas somavam cerca de 42 mil itens, dos quais 30 mil eram indígenas, referentes a 300 povos. 


No setor de linguística, parte do acervo também está digitalizado, de acordo com Bruna Franchetto, pesquisadora da área no museu, mas não há informações precisas sobre o conteúdo ou a que porcentagem corresponde do total. 

No material que estava principalmente no Celin (Centro de Documentação de Línguas Indígenas), havia arquivos sobre as línguas indígenas faladas no Brasil, hoje mais de 160, incluindo as consideradas já extintas.

Segundo Fausto, a digitalização de documentos não é simples como pode parecer para alguns e necessita de pessoas dedicadas e orçamento próprio. Para comparação, ele diz que projetos com esse fim em museus europeus tinham orçamento inicial da ordem de milhões de euros.

Outro ponto normalmente não levado em conta quando se fala de digitalização é a defasagem tecnológica que pode atingir o material. 

“Se você tentar abrir um arquivo digital de dez anos atrás, provavelmente você não vai conseguir. Não há garantia que daqui 50 anos seja possível abrir um arquivo digitalizado em TIFF [formato de arquivo de imagem]”, afirma Fausto.

Ele, que se dedica à documentação audiovisual indígena, afirma que, por conta própria, tem três cópias (agora, com o incêndio, duas) de seus materiais de pesquisa.

Para os pesquisadores, faltam direcionamento e padronização em relação à digitalização no Brasil. Todos os pesquisadores da área de antropologia ligados à pesquisa indígena procurados pela Folha afirmaram que a digitalização era descentralizada.

“Temos iniciativas localizadas, individuais, mas não faz parte da cultura brasileira a preservação digital. É algo recente”, diz Franchetto.

“Nem os diretores sabiam detalhes [do que era digitalizado]. Isso evidentemente também é um problema. Mas em uma instituição tão grande como essa é complicado [saber de tudo]”, afirma Fausto. 

Jósimo Constant, do povo poianaua, do estado do Acre, era um dos estudantes indígenas de pós-graduação do museu. “Eu vim para o museu com a ideia de poder deixar a língua do meu povo registrada sob nossa própria perspectiva”, diz.

Ele afirma que, em meio aos arquivos com os quais teve contato, encontrou documentos sobre o primeiro contato com o homem branco descrevendo características tradicionais dos poianaua (também grafado como puyanawa) e relatos do processo de colonização.

A partir do contato com essa documentação e da consulta a anciões de seu povo, Constant diz que já há  contestações da versão escrita da história. Sua linha de pesquisa deve continuar agora a partir de gravações em áudio e documentos que ele mesmo salvou digitalmente ou imprimiu. 

Segundo Edmundo Pereira, podem ajudar na recomposição, pelo menos digital, do acervo indígena as fotografias que foram feitas das coleções do povo indígena carajás —que ilustram esta reportagem—, de povos africanos, imagens que pesquisadores fizeram ao estudar os objetos, além de descrições detalhadas que foram feitas de 13 mil itens.

Até mesmo PDFs e cópias, que foram anteriormente conseguidos junto ao Museu Nacional, podem ajudar na reconstituição do acervo, diz Franchetto.

O momento de reconstrução, especialmente da área indígena do museu, pode ainda —mesmo com toda a perda de memória cultural envolvida no incêndio— ter um significado diferente para as relações entre os pesquisadores e os indígenas.

“O século 19 é marcadamente colonial. Os objetos que entraram no museu muitas vezes eram decorrentes de guerras, de processos violentos de formação das fronteiras da nação”, diz Pereira.

Um início dessa nova relação já começa a ser visto. Um pesquisador suruí que teve a visita ao acervo interrompida pelo incêndio já se prontificou a falar com seu povo para providenciar itens para a nova coleção. Movimentação semelhante já estaria ocorrendo também entre o povo hupda, no rio Negro, com a confecção de zarabatanas.



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