Um palco está montado em um dos salões de exposição do Museo Civico de Bassano del Grappa, perto de Vicenza, na Itália, durante uma mostra de arte contemporânea intitulada “In Colore”, com peças do artista italiano Daniele Marcon. Há pessoas se apresentando no palco. A maioria delas sofre de mal de Parkinson, mas também há visitantes jovens —e muito jovens—, imigrantes e pessoas das mais variadas origens, todos dançando.

Os participantes são convidados a tomar como inspiração os quadros com padrões geométricos, quadrados e retângulos, muitos em cores escuras, com contrastes fortes e linhas bem definidas. O objetivo das peças é estimular uma resposta emocional da parte da audiência, exatamente porque cores fortes são capazes de transmitir o fluxo da energia da vida.

Os participantes são parte de uma iniciativa de dança contemporânea chamada Dance Bem, que usa a dança como técnica de terapia e integração para pessoas que sofrem de parkinson. Elas fazem aulas de dança de uma hora de duração nas salas de exibição do museu, a cada segunda e sexta-feira.

Cedo em uma segunda-feira de abril, durante uma aula realizada no salão no qual estão expostos os trabalhos de Marcon, o professor e coreógrafo convida os participantes —cerca de 70 pessoas— a percorrer um caminho imaginário no espaço, seguindo linhas que os quadros exibidos na sala pareçam sugerir.

Os dançarinos se movimentam para a frente e para trás, da esquerda para a direita e vice-versa, mantendo os braços erguidos. Outros estão deitados no chão, sozinhos ou ao lado de parceiros. Alguns buscam espaços próprios, enquanto outros criam trajetórias que cruzam os percursos de outros dançarinos, resultando em um contato físico que pode ser terapêutico.

“Tudo começou com a ideia, mais tarde confirmada por pesquisas científicas, de que a dança contemporânea também pode ajudar as pessoas que sofrem do mal de Parkinson a melhorar sua capacidade de movimento, e com ela sua qualidade de vida”, diz Daniele Volpe, diretor do Centro de Reabilitação Neurológica da Villa Margherita, em Arcugnano (Vicenza), um dos seis centros de tratamento do Fresco Parkinson Institute na Itália.

Os esforços são ainda mais vitais porque o parkinson está rapidamente se tornando uma pandemia. Trata-se de uma doença degenerativa do cérebro que causa problemas cada vez maiores de movimento e equilíbrio.

Especialistas dizem que em 2015 havia 6,9 milhões de pacientes com Parkinson no planeta. O número pode dobrar até 2040, com consequências econômicas devastadoras para os serviços de saúde.

“Precisamos encontrar novos modelos de tratamento e reabilitação, para além dos métodos convencionais que foram usados até agora”, diz Volpe. “Há a necessidade de incorporar novos profissionais, como professores de dança, depois que eles passarem por treinamento específico, é claro.”

A Iniciativa Dance Bem foi lançada em 2013 em Bassano del Grappa, por Roberto Casarotto, diretor artístico do Operaestate Festival Veneto. “O projeto foi inspirado por uma reunião que tivemos com uma organização holandesa chamada Dance for Health”, explica Casarotto. “Mas se desenvolveu independentemente, com foco especial no aspecto artístico.”

As pessoas em geral pensam em terapia pela dança como uma atividade que se concentra exclusivamente no movimento e é realizada em escolas de dança ou academias de ginástica. Mas no caso do Dance Bem, as pessoas dançam em museus, tentando traduzir obras modernas e clássicas de arte em forma de movimento.

“O tango e a dança irlandesa são inestimáveis para as pessoas que sofrem do mal de Parkinson”, explica Volpe. “Eles estimulam áreas específicas do cérebro, como o córtex motor e sensório, que têm impacto sobre o movimento. Mas a dança contemporânea inspirada por arte comprovadamente estimula outras áreas cerebrais, como o sistema límbico, que fortalece as emoções e processos criativos.

Eva, 48, sofre de Parkinson há 15 anos. “Nos últimos quatro anos, a dança realmente mudou muita coisa na minha vida e pude retomar coisas que fazia antes da doença”, ela diz. “Mas acima de tudo superei o estigma associado ao mal de Parkinson. Já não sinto estar sendo julgada, e minha autoestima cresceu incrivelmente.”

Pesquisas científicas demonstram que o aspecto mais importante é continuar se movendo, diz Volpe, porque o movimento pode ativar mecanismos neuroprotetores no cérebro, encorajar a neuroplasticidade e resultar na criação de novas sinapses. “Isso significa que podemos retardar o avanço da doença.”

Alguns neurologistas italianos lastimam o uso excessivo de medicamentos no tratamento da doença de Parkinson, entre os quais a dopamina, que pode ter efeitos colaterais sérios, como movimentos descontrolados ou mesmo a interrupção de movimentos —conhecida como efeito congelador. Dançar pode ajudar a reduzir a necessidade de tratamento por medicamentos.

A Iniciativa Dance Bem se concentra primordialmente em pacientes do mal de Parkinson, mas o projeto está tentando envolver outros membros da comunidade, a saber, os jovens e os imigrantes. Cerca de 300 pessoas por semana participam das aulas de dança nos salões do Museo Civico.

“Nossas aulas também estão abertas às pessoas que estão em busca de asilo”, diz Casarotto. “Acreditamos que essa iniciativa possa fomentar a integração na comunidade, e também temos um projeto especial para esse fim, a despeito das objeções apresentadas por certos políticos.”

A aula de dança chega ao final depois de uma hora. Alguns participantes estarão diante de uma nova audiência no Festival Veneto Operaestate Bassano, em julho. Os “dançarinos de Parkinson” subirão ao palco para uma apresentação curta, com o objetivo de mostrar à audiência o que eles vêm praticando, e provar que uma doença nem sempre é um obstáculo. Às vezes ela pode ser uma oportunidade.



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