O brasileiro papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) tem recuperado a sua população na estreita faixa do litoral brasileiro no qual vive. É uma notícia boa, mas difícil de comemorar sem ressalvas. Mesmo com a redução de risco em listas de animais ameaçados, o tráfico em São Paulo ainda ameaça a espécie.

Segundo censo recente feito pela SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental), responsável pelo projeto de conservação do papagaio, a espécie tem 9.112 indivíduos.

A estimativa é a segunda maior já registrada pelo projeto. A maior população contabilizada pela SPVS foi em 2015, com 9.176 animais.

A condição populacional estável e com tendência a crescimento levaram ao rebaixamento do status de ameaça da espécie. No ano passado, ela passou de “vulnerável” para “quase ameaçada” na classificação da UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza).

​Elenise Sipinski, coordenadora da SPVS no projeto de conservação do bicho, diz que principalmente em São Paulo (a espécie também é endêmica do litoral do Paraná e de Santa Catarina, no qual não é avistada há muito tempo) a condição dos animais é mais delicada. No estado, a população é menor do que no Paraná –1.746 contra 7.366– e as pressões são maiores. A proximidade da mata de grandes cidades aumenta a ameaça, facilitando o tráfico.

Segundo a especialista, desde o início do monitoramento no litoral paulista em 2014, em 21 ninhos só dez filhotes tiveram êxito (deixaram o ninho e conseguiram voar). “É um número baixo, bem baixo”, diz. Para comparação, só no período reprodutivo 2017/18 no Paraná, 66 filhotes deixaram 120 ninhos.

No Paraná, onde o projeto de proteção atua há mais tempo, o trabalho com as comunidades locais –que sabem onde ficam os filhotes e muitas vezes fazem a remoção — faz com que roubos em ninhos monitorados não ocorram. 

Os papagaios-de-cara-roxa costumam viver a vida inteira em uma mesma árvore, o que contribui para a localização e ação dos traficantes. Além disso, por formarem casais monogâmicos, muitas vezes, ao perder o parceiro, as aves ficam sozinhas para o resto da vida, diz Felipe Feliciani, analista de conservação na mata atlântica, da WWF Brasil. De forma semelhante, quando perdem o ninho, é comum que não voltem a construí-lo.

“Além de ser bonito, o bichinho infelizmente resolveu falar”, diz Feliciani. 

Muitas pessoas, arrependidas da compra ilegal, fazem o que pareceria correto: soltar o animal. Mas a liberação de papagaios que foram criados sem contato com a natureza pode levar o bicho à morte.

A disseminação de doenças, como o circovírus, é outro porém, segundo Patrícia Serafini, coordenadora do plano de ação nacional para a conservação dos papagaios da mata atlântica, do ICMBio.

“A circovirose não existia no Brasil e agora já há papagaios com ela em cativeiro. Se a pessoa não souber que o animal está doente e soltá-lo na natureza, estaremos introduzindo uma doença que pode ter consequências irreversíveis.” A especialista afirma que a mensagem principal é “não prenda. Uma vez em cativeiro, não solte”.

Feliciani diz que o rebaixamento de status de risco deve ser motivo de comemoração pela comunidade científica, mas de cautela na comunicação ao público.

“O status dele é de quase ameaçado. A próxima categoria da lista da UICN é pouco preocupante. É uma escala convidativa para fazer algo com o bicho”, diz.

Roberto Cabral, coordenador de operações de fiscalização do Ibama, diz que a população em geral busca papagaios de fala, independente da espécie. Por isso, e pela sua ampla distribuição no país, o papagaio-verdadeiro (Amazona estiva) é a vítima mais comum do tráfico.

“Só existe tráfico porque existe quem compra”, diz Cabral, que destaca que a população precisa considerar a posse desse tipo de animal como um crime. “Quando você vai na casa de um amigo e ele tem um animal desse tipo precisa existir uma repreensão.”



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