“Olha, eu vim para São Paulo ser gerente de banco, na maior agência da capital”, um homem de 80 anos repetia esta frase indefinidamente já há alguns meses, e previsivelmente não parou de dizê-la durante sua primeira consulta com o médico neurologista.

O idoso estava acompanhado por sua filha, muito preocupada com a péssima memória dele e com essas exaustivas repetições. Entre frases iguais do paciente, a herdeira perguntou: “Ei, pai, Você não se recorda de quem ele é?”, em clara referência ao médico.

“Claro que sim, ele é o advogado que joga vôlei com seu irmão.” “Não, pai”, foi a contrarresposta da mulher, nitidamente constrangida. “Ele estudou comigo no colégio em Guaxupé”.

Conforme a consulta avançava a acompanhante detalhava ainda mais a evidente perda progressiva de memória do ex-bancário. Esta manifestação essa é a principal característica da doença de Alzheimer. Não ficou difícil para o neurologista perceber qual era a explicação para tantos esquecimentos e repetições.

Outro sinal do declínio intelectual foi o teor de sua resposta à filha: em vez de dizer que não reconhecia quem estava a sua frente, fez alusão a um advogado e ao seu filho, já falecido. A rigor não mentiu, mas espontaneamente fabricou uma memória para cobrir lacunas de suas reminiscências. Assim ele confabulou.

As perdas intelectuais provocadas pela doença de Alzheimer resultarão em demência quando o acometido se torna incapaz. As demências alteram o ambiente neural possibilitando que confabulações substituam rememorações adequadas.

Em cérebros normais a ínsula cerebral, entrelaçada ao sistema límbico —conjunto de estruturas cerebrais que regem emoções— se conecta aos lobos temporais, regiões responsáveis por reativar memórias. O córtex pré-frontal, matriz do raciocínio, também se conecta com lobos temporais, e tem por uma de suas funções monitorar as fontes de informações cerebrais.

Cortéx-pré-frontal, lobos temporais e ínsula são exemplos de centros cerebrais que se conectam para possibilitarem recordações, que surgem em resposta às emoções. Ou por esforço racional, frente a alguma demanda. Mas frequentemente há mistura em proporções diferentes de emoções e raciocínio.

Essas conexões permitem que processos neurais façam distinção entre memória consolidada e outros sinais encefálicos como aqueles produzidos pela imaginação. Permitem separar também se a memória baseia-se em experiências próprias ou em ensinamentos, se as recordações surgem de fatos que participamos ou de fatos que assistimos, se ficção ou realidade.

Quando alguma doença, como o alzheimer, interrompe conexões, esses processos tornam-se defeituosos e pensamentos intrusos que misturam várias formas de experiências pregressas podem surgir durante tentativas de evocação, eis que emerge a confabulação.

Relembrar, portanto é intricado, e a doença de Alzheimer amplifica e sistematiza disfunções que surgem de forma mais discretas em pessoas normais. O que quero dizer? Que falsas memórias surgem no meio de nossas recordações.

O estudo dos psicólogos Shaw e Porter demonstrou ser possível induzir universitários a acreditarem que cometeram crimes na adolescência (falsas crenças), ou pior, que se recordem da participação de delitos que nunca fizeram (falsas memórias).

As descobertas dos pesquisadores mostram que técnicas sugestivas como criar contexto apropriado, incentivar o uso de imaginação e pressionar alguém com perguntas tendenciosas, podem levar as pessoas a construir memórias com verniz de realidade para fatos nunca ocorridos. Algo que pode ter implicação prática em tribunais.

A pessoa com doença de Alzheimer perde suas memórias progressivamente ficando em risco de esquecer sua essencial experiência de vida.  Em pessoas normais, falsas memórias podem recriar a forma de contar o passado, e modificar dinamicamente nossa percepção do que somos.



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