Uma das mulheres leva um tapa no rosto. É empurrada. A outra carrega um bebê amarrado nas costas.


As duas são acusadas de estarem ligadas ao grupo extremista Boko Haram e estão sendo levadas para morrer. No vídeo, elas são vendadas e forçadas a ajoelhar no chão. É possível ouvir um total 22 disparos. Mães e crianças são assassinadas.


A partir de uma análise das imagens, a equipe da Africa Eye, braço do serviço africano da BBC, conseguiu identificar onde e quando o vídeo foi gravado. A investigação, que contou com a ajuda de voluntários especializados em coletar e analisar dados de fontes abertas, também revelou a participação de soldados do Exército de Camarões na chacina.


Por meio de imagens de satélite, perfis no Facebook, análise de sombras projetadas no chão, armas e uniformes que aparecem no vídeo, além de informações de fontes, foi possível dissecar os assassinatos e identificar os assassinos. O crime aconteceu em 2015 e contou com a participação de soldados camaroneses.


Inicialmente, o governo de Camarões classificou o vídeo como “fake news” e disse que as imagens haviam sido registradas no Mali. Depois, decidiu abrir uma investigação e anunciou que prendeu preventivamente sete soldados.



Anatomia de um crime


A reportagem foi apresentada no Twitter, detalhando passo a passo da busca por detalhes capazes de revelar onde e quando o vídeo foi filmado – e, principalmente, quem participou do crime.




O primeiro passo foi descobrir onde as imagens foram registradas. Algumas pessoas diziam ser no Mali, outras afirmavam que o crime havia ocorrido em Camarões, onde o Exército camaronês combate o grupo extremista Boko Haram desde 2014.


Nas imagens, é possível ouvir em francês as letras “B” e “H”, o que se acredita ser uma referência ao Boko Haram, com forte atuação na África. Decidiu-se, assim, concentrar as buscas em Camarões.


As montanhas


Nos primeiros 40 segundos do vídeo, é possível ver uma cordilheira com um contorno bem peculiar. A equipe da BBC procurou uma topografia similar no norte de Camarões, por meio do sistema de satélite e mapas do Google.




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No final de julho, uma fonte em Camarões perguntou se haviam procurado na região próxima de Zelevet, quase na fronteira com a Nigéria.


Foi justamente nessa área que as imagens de satélites identificaram exatamente a mesma topografia vista do vídeo.




Foi feita uma análise detalhada comparando todas as árvores que aparecem no vídeo e nas imagens de satélite.








A data


O segundo desafio foi identificar quando o vídeo foi filmado. A partir do cruzamento das construções que aparecem nas imagens do vídeo e nas capturadas por satélite, foi possível descobrir que a gravação foi feita em algum momento depois de 2014 e antes de fevereiro de 2016.








Isso porque um muro que aparece no vídeo ainda não havia sido erguido em novembro de 2014 e uma construção que pode ser vista ao fundo da gravação foi demolida em fevereiro de 2016, conforme as indicam as imagens de satélite.


Foi possível restringir ainda mais o período ao observar que caminho de terra batida aparece com um traçado similar nas imagens de satélite no período de seca, entre janeiro e abril.




Assim, a equipe da BBC concluiu que as imagens teriam sido registradas no começo de 2015.


Outras pistas menos evidentes foram levadas em consideração. Ao caminharem, soldados tinham projetadas suas sombras no chão. Por meio do ângulo calculado a partir da sombra e da altura de um dos soldados, foi possível identificar a posição do sol e, assim, delimitar o período em que o crime ocorreu.


Com base no “relógio de sol humano”, identificou-se que a imagem foi gravada entre 20 de março e 5 de abril de 2015.




Os responsáveis


Depois de saber onde e quando a chacina aconteceu, ainda faltava responder quem era os responsáveis pelos assassinatos.




Issa Tchiroma Bakary, ministro das Comunicações de Camarões, insistia em dizer que o Exército camaronês nada tinha a ver com o crime.


Bakary afirmou que as armas que podem ser vistas no vídeo não são usadas pelas forças camaronesas nessa área ao norte do país.

Mas a análise da BBC mostra que uma arma que aparece sendo carregada por um dos homens que participaram da chacina é uma Zastava M21, de fabricação sérvia. Apesar de raro na África subsaariana, esse tipo de armamento é, sim, usado por algumas divisões do Exército camaronês.




O ministro também argumentava que os homens do vídeo usavam uniformes com camuflagem escura, desenhadas para operações em florestas. Segundo Bakary, os soldados no norte do país vestem uniformes mais claros, para áreas de deserto.


Mas, ao comparar o vídeo com imagens de 2015 captadas por uma reportagem feita em Zelevet pelo canal de televisão Channel 4, do Reino Unido, é possível observar soldados vestindo uniformes escuros muito parecidos com os dos soldados que aparecem nas imagens da chacina.


A BBC também encontrou imagens no Facebook de soldados em Zelevet vestindo o mesmo tipo de camuflagem para floresta.

Uma pergunta que surgiu ao longo da apuração foi por que os soldados não estão vestindo o uniforme padrão para operar nessa área.


Acredita-se que eles não estavam patrulhando a área. Estavam a menos de um quilômetro do posto de combate, previamente identificado pela BBC nas imagens de satélite.




Troca de posição


Em agosto, o governo de Camarões recuou e mudou a versão sobre o vídeo.


Depois de passar três semanas negando que os assassinatos teriam ocorrido no país, as autoridades informaram que sete integrantes das Forças Armadas camaronesas haviam sido presos e estavam sendo investigados.


A BBC conseguiu identificar que três dos homens que atiraram. Um deles, no vídeo, é chamado de “Tchotcho”.




A BBC encontrou um perfil no Facebook que vincula o apelido “Tchotcho” a um soldado chamado Cyriaque Bityala.


Esse nome aparece numa lista do governo de pessoas que estão sendo investigadas.




A BBC também conversou com um ex-soldado camaronês que pediu para não ser identificado. Ele confirmou que o homem no vídeo é “Tchotcho” Cyriaque Bityala.




Ele aparece no final do vídeo tapando os olhos da garotinha que está prestes a morrer.


A BBC também identificou outras duas armas usadas na chacina.


Uma delas está nas mãos deste homem. É possível vê-lo cobrindo o rosto da mulher que carrega um bebê pouco antes de se ouvir o barulho dos disparos.


A fonte militar ouvida pela BBC o identificou como Barnabas ‘Gonorso’.




No entanto, a reportagem não foi capaz de confirmar a identidade deste homem. Um nome muito parecido aparece na lista de soldados investigados pelas autoridades camaronesas: Barnabas Donossou.


A outra arma usada é uma Zastava M21, nas mãos de um homem identificado apenas como “Cobra”.


Mas quem é “Cobra”?




Quando as mulheres e as crianças são assassinadas, “Cobra” é o último homem que pode ser visto atirando.


É possível ver um soldado dizendo “Tsanga, deixa pra lá, estão mortos”. Ele continua disparando e é possível ouvir: “É suficiente, Tsanga”.




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‘Julgamento justo’


A BBC apresentou os resultados da investigação jornalística ao governo de Camarões, segundo o qual sete soldados foram presos e desarmados enquanto são investigados.


A declaração do governo deixa claro que todos eles são considerados inocentes até que se prove o contrário e que receberão um julgamento justo.


As duas mulheres mortas nos arredores de Zelevet não receberam nenhum tipo de julgamento. E nenhuma presunção de inocência foi estendida aos filhos que morreram com elas. Ainda não se sabe quem são essas mulheres.




*A sequência de tuítes da investigação jornalística da BBC África Eye pode ser lida em inglês aqui e o documentário, também em inglês, está disponível neste link.

Investigação: Aliaume Leroy e Ben Strick

Produção: Daniel Adamson e Aliaume Leroy



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