“Para entender conceitos complicados, às vezes é preciso que alguém os desenhe. Pois então os cientistas Matteo Farinella e Hana Ros desenharam sobre neurociência na história em quadrinhos “Neurocomic”, que acaba de chegar ao Brasil.

Em uma viagem para dentro do cérebro, o leitor encontra alguns dos principais pesquisadores da área explicando em termos acessíveis a morfologia e os mecanismos de funcionamento do órgão –com pouco texto e muito desenho.

É uma versão ilustrada de Santiago Ramón y Cajal, pesquisador espanhol que inaugurou a neurociência moderna, que dá as boas-vindas ao leitor com uma breve aula sobre a estrutura do cérebro.

“Histórias em quadrinho são ferramentas poderosas”, diz o pesquisador italiano Farinella e também ilustrador da obra. “Essa foi uma maneira de finalmente reconciliar minhas duas paixões, mas também uma oportunidade de tornar nossa área de estudos mais acessível para um público maior”, afirma.

Cajal, ganhador do Nobel de Medicina de 1906 ao lado do italiano Camillo Golgi pelos estudos sobre a estrutura do sistema nervoso, também foi ilustrador científico. Sua influência está registrada nos traços de Farinella.

A obra confirma o status pop que a neurociência ganhou. O assunto saiu dos limites dos hospitais e centros de pesquisa e, hoje, já aparece até em cursos de pós-graduação de marketing e comunicação com a promessa de desvendar como a cabeça do cliente e do público funciona.

Mas quanto do cérebro nós realmente conhecemos? Na visão de Farinella, ainda muito pouco.

“Ouvimos muito sobre conceitos complexos como consciência e doenças degenerativas. Esse são assuntos importantes, mas, antes de abordá-los, é útil entender o básico: o que é um neurônio? Como uma sinapse funciona? Como o cérebro usa a eletricidade para codificar uma informação?”, diz o cientista.

Os autores usam linguagem simples, sem jargões técnicos, no pouco texto que há em “Neurocomic”. A grande vantagem das histórias em quadrinhos está justamente na possibilidade de trocar palavras por ilustrações.

Em um trecho, por exemplo, os escritores comparam neurônios a árvores. Nessa metáfora, a aprendizagem é vista como o processo de poda de uma planta. “Assim, fica mais fácil entender como as experiências modelam nosso cérebro”, explica Farinella.

Para Li Li Min, professor do Departamento de Neurologia da Unicamp, é muito difícil traduzir essas ideias para a população sem formação na área. “O desenho facilita a compreensão”, afirma Min.

Outro benefício do formato da HQ, segundo ele, é trazer uma abordagem mais leve para o tema, que permite manter o rigor científico e dispensar o formalismo acadêmico que pode afastar o público.

Há cerca de 15 anos, o próprio Min coordenou uma equipe multidisciplinar na criação de um conjunto de pequenas histórias em quadrinhos para educar o público com relação à epilepsia.

Os trabalhos, na época publicados na internet, acompanhavam a rotina de Cris, personagem diagnosticada com a doença.

“Foi um meio que encontramos para explicar a doença e combater o preconceito”, diz.

Entender o impacto e a utilidade das histórias em quadrinhos para a divulgação científica e a educação é o enfoque principal da pesquisa atual de Farinella, que hoje trabalha com um grupo de jornalistas, psicólogos e especialistas em dados na Universidade Columbia, em Nova York.

Para produzir “Neurocomic” os autores contaram com financiamento da Wellcome Trust, ONG britânica voltada para o desenvolvimento científico. Em 2016, a tradução do livro para o francês recebeu o prêmio Sciences pour Tous (ciência para todos), dedicado à obras literárias de divulgação de áreas como física, química e biologia.

O sucesso de “Neurocomic”, lançado originalmente em inglês em 2014, levou à publicação de “Senses” (sentidos) no fim de 2017. Ainda inédito em português, o livro faz um mergulho no mundo dos toques e sabores para revelar as relações entre sentidos e memória.



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