O Acordo de Paris (2015) definiu que o ideal seria o aumento da temperatura média da atmosfera terrestre não ultrapassar 1,5°C. Decidiu-se então que o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, na sigla em inglês) faria um relatório acerca desse limiar de risco, documento publicado nesta segunda-feira (8).

Sem entrar nos detalhes científicos enfadonhos, a conclusão dos 86 especialistas, depois de examinar mais de 40 mil comentários sobre o texto: vai ser muito difícil ficar aquém disso, um limite considerado menos ameaçador que os 2°C adotados como teto.

Observar esse limite inferior faria com que o nível do mar subisse 10 cm a menos, até o ano 2100, que o previsto antes (98 cm, no pior cenário, mas há estudos falando em até 6 m ao longo de séculos). A diferença poderia significar até US$ 1,5 trilhão a menos de prejuízos com enchentes e ressacas, segundo compilação da iniciativa Carbon Brief.

Não é o caso de levar muito a sério esses números, porque se baseiam numa enormidade de suposições sobre a economia mundial, mudanças de tecnologia e sua interação complexa com o sistema climático. Mas são os únicos à mão e servem para dar ideia da escala do problema à frente.

​ Uma possibilidade alarmante para o Brasil e boa parte da América do Sul seria o ressecamento da Amazônia, com a floresta chuvosa revertendo a formações mais secas, semelhantes ao cerrado. Baixar a zero o desmatamento, uma das maiores fontes de emissões brasileiras de gases do efeito estufa, preservaria essa biodiversidade e daria contribuição importante para suavizar a mudança climática.

O setor de energia mundial teria de dar um triplo twist carpado nos próximos 15 ou 20 anos. Seria preciso abandonar o investimento em combustíveis fósseis (carvão e petróleo e gás natural) em favor de energia eólica e solar, com armazenamento em megainstalações de baterias e eletrificação dos transportes.

A hipótese de isso acontecer, a julgar pela trajetória atual, parece nula. A demanda global por petróleo vem subindo à taxa de 1,5% ao ano, quando deveria diminuir. Após três anos mais ou menos estacionada, a emissão de dióxido de carbono pela queima de combustíveis fósseis voltou a crescer em 2017.

As fontes renováveis alternativas são as que mais avançam, inclusive aqui, mas não em ritmo suficiente. Pelas projeções do IPCC, há alta probabilidade de revelar-se imprescindível o recurso a tecnologias ainda não comprovadas para retirar carbono da atmosfera, e não só deixar de emiti-lo.

Por exemplo, fazer uso intensivo de biomassa e biocombustíveis para gerar energia e ainda filtrar o CO2 do ar e enterrá-lo nas profundezas do solo. Ou mesmo, como propõem os fãs de ficção científica, lançar artefatos em órbita para bloquear radiação solar.

Há experiências localizadas bem-sucedidas nessa direção, mas o mundo segue fora da rota capaz de generalizá-la. Mesmo cumpridas todas as promessas feitas em Paris, a atmosfera ainda iria aquecer-se algo em torno de 3°C, talvez 4°C –uma temeridade.

Nem as metas de Paris estão garantidas. Alemanha e Reino Unido, até há pouco paladinos do combate ao aquecimento global, arriscam não cumprir as suas.

Nos EUA, maior poluidor climático da história, Donald Trump mandou o acordo às favas, coisa que seu imitador menos bem-dotado também promete fazer por aqui. Na China, maior emissor de CO2 do presente, o consumo de carvão mineral segue em alta.

Por ironia, o próximo encontro de negociação internacional sobre o Acordo de Paris (COP24) ocorrerá em Katowice, no coração carbonífero da Polônia. Mas quem sabe ainda vai ficar pior: um presidente brasileiro aloprado pode levar a reunião seguinte, COP25, para Novo Progresso (PA), onde reinam grileiros, garimpeiros e incendiários.

Chegou a hora de pôr a conversa mole de lado e encarar a realidade: não há chance de o clima melhorar tão cedo. Mas também não é motivo para abater-se, cruzar os braços e deixar de fazer o que for possível para minimizar os danos: 4°C será muito pior que 2°C, assim como oito anos de um governo desastroso sempre serão piores que quatro.



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