​Uma das novidades nas eleições deste ano é a candidatura de cientistas ou pessoas próximas à academia para o legislativo federal, distrital e estadual. Historicamente raro no país, o engajamento de pesquisadores na política ganhou volume após a desidratação do orçamento federal da ciência nos últimos anos.

“Decidi me candidatar em razão da política de austeridade econômica implementada nos últimos dois anos, que tem prejudicado muito a ciência, a tecnologia e a educação”, diz a matemática Tatiana Roque (PSOL-RJ), professora da UFRJ que disputa uma vaga na Câmara dos Deputados.

Embora cada um dos candidatos-cientistas desfraldem bandeiras próprias, todos pretendem lutar para aumentar o investimento público em ciência e tecnologia.

“Hoje o país gasta mais ou menos 1% do PIB em ciência e tecnologia. Precisamos aumentar 0,5% do PIB por ano até chegar a algo como 3%, 3,5% do PIB —valor que a Coreia do Sul investe, por exemplo”, diz o bioantropólogo Walter Neves (PPL-SP), professor aposentado da USP e candidato a deputado federal.

Outra bandeira comum é o combate à Emenda Constitucional 95, que institui o chamado teto dos gastos, que limita o investimento público em diversas áreas, como Ciência e Tecnologia.

As candidaturas são bem-vistas pelos presidentes das duas principais entidades de cientistas do país, a ABC (Academia Brasileira de Ciências) e a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). 

“Acho positivo que pessoas envolvidas com ciência se interessem por participar da política. Isso é melhor do que a ideia que surgiu há algum tempo de criar um partido da ciência, pois um partido não pode ter um único tópico em sua agenda”, diz Luiz Davidovich, presidente da ABC.

A proposta de um partido também não agrada Ildeu Moreira, presidente da SBPC. “A gente vê com bons olhos as candidaturas, mas o mais importante é ter no parlamento pessoas com mais sensibilidade e que levem adiante as posições da comunidade científica, sejam cientistas ou não.” 

Apesar de não apoiar partidos ou candidaturas individualmente, a SBPC se comprometeu a divulgar os nomes de todos aqueles que aderirem às posições da associação em seu site na internet. Segundo a entidade, a lista deve estar no ar nesta semana.

A presença de pesquisadores no Congresso e nas assembleias legislativas, além de aumentar a representatividade da ciência nas esferas políticas, pode também trazer mais racionalidade aos debates ali travados.

“Os cientistas podem contribuir orientando e fomentando políticas fundamentadas em evidências empíricas, e não em achismos ou argumentos puramente ideológicos”, afirma o físico Alexandre Costa (PSOL-CE), professor da Universidade Estadual do Ceará que tenta se eleger para a Câmara dos Deputados.

Mas quantos cientistas são necessários para formar uma “bancada da ciência”? “Se dois se elegerem, já dá para fazer muito barulho, mas, para tentarmos sair do caminho da barbárie, o ideal seria meia dúzia ”, diz Walter Neves. “O objetivo de ter uma bancada da ciência é não deixar que as pautas relativas à área fiquem sempre em segundo plano e mostrar que elas são prioritárias”, diz Tatiana Roque.


Alexandre Costa, 48 (PSOL-CE)

Candidato a deputado federal
Formação: Graduação em física (UFC) e doutorado em ciências atmosféricas (Universidade Estadual do Colorado, EUA)
Trajetória: Professor da Universidade Estadual do Ceará
Por que se candidatou? 

Combater a falta de ação política na questão climática

A principal motivação do pesquisador do clima Alexandre Costa para lançar sua candidatura foi a falta de resposta da classe política para a questão do aquecimento global. 

“Durante muito tempo achei que bastava produzir a melhor ciência possível e fornecer os dados aos tomadores de decisão para que as ações fossem tomadas em consonância com as evidências científicas. O que a gente vê, no entanto, é o contrário.”

O cientista também defende o investimento em fontes de energia renovável, sobretudo a eólica e a solar.

“Mas esse investimento precisa ser feito de uma maneira socioambientalmente justa. Usinas eólicas aqui no Ceará abriram conflitos territoriais nas comunidades de pescadores em que foram instaladas.”

Daniel Cara, 40 (PSOL-SP)

Candidato a senador

Formação: cientista político, doutorando em educação pela USP

Trajetória: teve atuação em ONGs e junto ao congresso em temas educacionais

Por que se candidatou?

A emenda constitucional do teto de gastos trouxe grandes retrocessos para a ciência e a educação

Para que 40 milhões de alunos matriculados tenham acesso a uma infraestrutura escolar de qualidade, seriam necessários R$ 55 bilhões, diz Daniel Cara. “Parece muito, mas é somente 1,5% do Orçamento da União em 2018.” 

A ideia da candidatura, diz, é trazer propostas estruturadas que mostrem como atingir os objetivos. O modelo comumente adotado pelas candidaturas de esquerda, “de questionamento, de enfrentamento”, segundo o cientista político, não dá mais conta das necessidades da população. 

Para conseguir votos, o problema não é convencer as pessoas, é chegar até elas. “Nosso sistema eleitoral foi feito para não permitir uma renovação, dificultando candidaturas de partidos pequenos. Temos que enfrentá-lo.”

Jorge Venâncio, 67 (PPL-SP)

Candidato a deputado federal

Formação: médico pela UFRJ

Trajetória: Sindicalista e coordenador da Comissão Nacional de Ética e Pesquisa (Conep) por cinco anos

Por que se candidatou?

Um projeto de lei (7.082) em tramitação acabaria com a Conep, diz o candidato, e isso traria insegurança para os pacientes de ensaios clínicos

Com histórico no movimento sindical e na coordenação da Conep, entidade responsável pela aprovação de protocolos de pesquisa que envolvem humanos, Jorge Venâncio diz que o órgão pode estar com os dias contados graças a uma lei que, segundo ele, vai criar uma entidade sem independência.

Além de ser ator nesse tema, caro à indústria farmacêutica e a pacientes, o médico também quer se tornar uma voz da ciência. “Desenvolver um país sem ciência e tecnologia é impossível. O modelo de exportar produto primário sem agregar valor está superado há mais de um século.”

“Por estar em um partido pequeno e limpo, não preciso de tantos votos quanto os candidatos dos partidos da Lava Jato para ser eleito”, afirma.

Mariana Moura, 37 (PPL-SP)

Candidata a deputada federal

Formação: Graduação em relações internacionais e doutoranda em energia (USP)

Trajetória: É professora da Esamc (Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação)

Por que se candidatou?   

Faz parte do grupo Cientistas Engajados e pretende incentivar a pesquisa básica

Única candidata-cientista concorrendo ao legislativo paulista, Mariana Moura não tem dúvida de que, uma vez eleita, conseguirá convencer deputados das mais diversas colorações ideológicas da importância de se investir em ciência e tecnologia.

Mariana propõe, entre outras coisas, um plano de ciência e tecnologia para São Paulo. “Temos uma infraestrutura muito boa aqui, mas desconectada. Temos os centros Paula Souza, que são desconectados das universidades, que, por sua vez, são desconectadas dos centros estaduais de pesquisa. Precisamos integrar essa infraestrutura.”

Também defende o investimento nos institutos e parques tecnológicos. “Apesar de sua importância, muitos deles estão abandonados hoje.”

Tamara Naiz, 34 (PC do B-DF)

Candidata a deputada distrital

Formação: Historiadora e doutoranda pela UFG

Trajetória: Foi presidente da Associação Nacional dos Pós-Graduandos

Por que se candidatou?  

Os parlamentares do país têm um olhar curto e não percebem a importância de investir em ciência, diz

“Quando vou de porta em porta, na vizinhança, divulgar minha candidatura, muitas vezes as pessoas ainda me pedem emprego —elas estão acostumadas com isso. É hora de construir uma nova política, baseada em interesses coletivos”, diz Tamara Naiz. “A diversidade do povo tem que ser refletida na política.”

A historiadora afirma que os candidatos oriundos da academia, se eleitos, terão de ter jogo de cintura, estabelecer prioridades e se dedicar a longas negociações. 

Entre suas propostas está reavivar a discussão sobre a universidade distrital, “que só aparece em tempo de eleição”, recuperar o orçamento para ciência e tecnologia no DF, além de fortalecer o Parque Tecnológico de Brasília com a chegada de startups.

Tatiana Roque, 48 (PSOL-RJ)

Candidata a deputada federal

Formação: Graduação em matemática (UFRJ) e doutorado em história e filosofia da ciência (UFRJ)

Trajetória: É professora da UFRJ e foi palestrante no último Congresso Internacional de Matemáticos

Por que se candidatou?

Para lutar contra os cortes no orçamento da ciência

Se eleita para o Congresso, a matemática Tatiana Roque terá como objetivo prioritário não propor uma nova lei, mas derrubar algumas criadas nos últimos anos, principalmente a Lei do Teto de Gastos (que limita os gastos públicos por 20 anos).

“As medidas de austeridade têm prejudicado áreas estratégicas para o país, como ciência, tecnologia e educação.”

Essa batalha, diz, deve ser travada por meio de argumentos científicos e evidências empíricas, não argumentos morais ou de princípios.

Outra bandeira empunhada por Tatiana é a da representação feminina no Parlamento por meio de cotas para mulheres. “As reservas de vagas nas listas partidárias não surtiram efeito. Hoje, só 12% dos deputados são mulheres.”

Walter Neves, 60 (PPL-SP)

Candidato a deputado federal

Formação biólogo especialista em antropologia

Trajetória  foi professor titular da USP e liderou descobertas sobre a ocupação humana nas Américas

Por que se candidatou? Faz parte do grupo Cientistas Engajados e diz que pretende combater a fome e levar mais ciência ao público

Talvez a proposta de Neves que mais agrade a comunidade acadêmica seja a elevação do investimento público anual em ciência e tecnologia para um mínimo de 3% do PIB (hoje em cerca de 1%). Depois, a meta é constitucionalizar o dispêndio, garantindo que ele não caia no futuro.

Segundo ele, parte dos recursos devem ir para a divulgação científica, ou seja, para iniciativas que levem conhecimento à população, área na qual ele também atua.

Um sintoma da falta de letramento científico das pessoas, diz, é que não há apoio popular durante a crise orçamentária que atinge a pesquisa nacional. “Somos absolutamente irrelevantes para a população e a culpa é nossa. Os cientistas não descem do salto alto. Eu sou uma exceção.”



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