“Descelularizado” parece neologismo para designar quem está sofrendo uma crise de abstinência por falta de acesso ao smartphone, mas o termo, na verdade, é uma das palavras-chave para quem tenta contornar a escassez de órgãos para transplante no mundo.

E se fosse possível descelularizar totalmente o coração de um doador —ou seja, retirar todas as células e todo o material genético original— , usar o “esqueleto” do órgão como base para células do próprio paciente que vai receber o transplante e, assim, concluir o processo tendo em mãos um coração novo em folha, pronto para ser transplantado sem riscos de rejeição?

Cinquenta anos depois dos primeiros transplantes no Brasil e no mundo,  vários laboratórios mundo afora têm corrido atrás desse novo objetivo. “É algo com um potencial enorme, que está se aproximando das aplicações em seres humanos”, afirma Rayssa Arruda Pereira, que faz doutorado em biotecnologia na Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo).

A pesquisadora, seu orientador Breno Nogueira e outros colegas estão tentando contornar os obstáculos que ainda existem para que a técnica se torne viável, tanto para transplantes de coração quanto para outros órgãos, como rim e baço.

O primeiro passo para isso é fazer com que sobre apenas a chamada matriz extracelular do órgão original, ou seja, o conjunto de proteínas e outras moléculas que dão suporte às células, mais ou menos como os andaimes usados para construir um prédio. Quando esse processo é concluído, o que resta é uma estrutura translúcida, espécie de “fantasma” do coração que será transplantado.

Depois disso, é preciso obter células-tronco da pessoa que receberá o transplante. Tais células se caracterizam, de modo geral, pela capacidade de dar origem a diferentes tipos de tecido, mas algumas são mais maleáveis do que outras. As mais promissoras, no longo prazo, são as reprogramadas geneticamente para voltar a um estado semelhante ao embrionário, mas ainda falta muito trabalho para comprovar a segurança e a eficácia delas.

Outras, com capacidades mais modestas, obtidas da medula óssea, talvez já sejam suficientes no caso do coração, segundo indicam os trabalhos da equipe da Ufes. O próprio contato de tais células com a matriz extracelular poderia ser suficiente para direcionar sua especialização, levando à recriação do órgão.

O problema, porém, é o que poderíamos chamar de controle de qualidade do órgão descelularizado. Ainda que o exame visual indique   que a matriz extracelular já está totalmente “desnuda”, a prova dos nove tem de vir da análise de DNA: se ainda houver material genético do doador no órgão, problemas de rejeição podem continuar acontecendo. E a análise genética, por demandar a retirada de uma amostra do arcabouço do órgão, pode acabar colocando sua funcionalidade em risco.

Rayssa e seus colegas desenvolveram um método não invasivo para escapar desse dilema. Um sensor óptico usa o padrão de absorção de luz do coração descelularizado para estimar se ele está apto para o transplante, sem sobras de células ou de DNA. A tecnologia rendeu o registro de uma patente e foi premiada pela Swissnex, iniciativa público-privada da Suíça que incentiva a pesquisa e a inovação.

Outros colaboradores do estudo são pesquisadores do Instituto Federal do Espírito Santo e do Instituto de Matemática e Estatística da USP. A empresa de tecnologia Qualcomm também apoia a pesquisa.



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