A foto noturna de um tamanduá se movendo em direção a um enorme cupinzeiro no Parque Nacional das Emas, em Goiás, que havia sido declarada vencedora do concurso de Vida Selvagem de 2017, foi desqualificada por supostamente apresentar uma cena manipulada.

A imagem, feita pelo geógrafo brasileiro Marcio Cabral, teria usado um animal empalhado, o que viola as regras, segundo o Museu de História Natural de Londres, que administra a competição.

Cabral nega ter alterado a cena da foto e alega que há uma testemunha que estava com ele no dia.

Segundo ele disse à BBC, outros fotógrafos e turistas estavam no parque naquele momento e, portanto, “seria muito improvável que alguém não visse um animal empalhado sendo transportado e colocado cuidadosamente nesta posição”.

Roz Kidman Cox, presidente do júri do Vida Selvagem do Ano foi dura em suas críticas.

“Essa desqualificação deve lembrar aos participantes que qualquer transgressão das regras e do espírito da competição será descoberta”, disse ela.

Esta não é a primeira vez que o júri do Vida Selvagem do Ano tiveram que desqualificar uma inscrição vencedora. Em 2009, a foto ganhadora do grande prêmio, que supostamente mostrava um lobo espanhol saltando por cima de um portão, foi desqualificada.

Suspeita

A imagem do brasileiro, intitulada “The Night Raider” (O Invasor Noturno, em tradução livre), havia vencido o prêmio na categoria “Animais em Seus Ambientes”.

As luzes verdes que aparecem são de larvas que vivem nas camadas externas dos cupinzeiros.

A legenda da foto dizia que a aparição do tamanduá foi inesperada, um “bônus surpresa”.

O Museu de História Natural de Londres diz que recentemente algumas pessoas levantaram a suspeita de que a imagem teria sido encenada —e que o intruso faminto é, na verdade, um modelo empalhado que pode ser visto na entrada da reserva.

Análise detalhada

Quando alertado para essa possibilidade, o museu pediu a cinco cientistas que revisassem a foto vencedora e a comparassem com o modelo de exibição do centro.

Esses profissionais, incluindo o especialista em taxidermia do Museu de História Natural londrino e pesquisadores sul-americanos de mamíferos e tamanduás, trabalharam separadamente uns dos outros, mas todos chegaram à mesma conclusão —que se tratava do mesmo animal.

Os cientistas descobriram que as marcas, as posturas, as morfologias e até mesmo o posicionamento dos tufos de pelos eram muito semelhantes.

Realidade da natureza

O Museu de História Natural diz que Cabral cooperou totalmente com a investigação, fornecendo imagens RAW (formato cru) tiradas “antes” e “depois” da cena vencedora. Mas nenhuma delas incluía o tamanduá.

“Infelizmente, não tenho outra imagem do animal porque é uma longa exposição de 30 segundos e ISO 5000. Depois que os flashes foram disparados, o animal deixou o local, por isso não foi possível fazer outra foto com o animal saindo do local totalmente escuro”, explicou Cabral.

As regras do Vida Selvagem do Ano afirmam que “as imagens não devem enganar o espectador ou tentar deturpar a realidade da natureza”. Dessa maneira, a fotografia perdeu seu título de vencedora e foi retirada da exposição com os registros ganhadores da competição.

“Acho desalentador e surpreendente que um fotógrafo possa ir tão longe para enganar a concorrência e seus seguidores em todo o mundo. A competição dá grande importância à honestidade e à integridade, e tal violação das regras é desrespeitosa com a comunidade de fotografia da vida selvagem, que está no coração da competição”, diz à BBC Kidman Cox, que está no júri do Vida Selvagem há mais de 30 anos.

Cabral afirma que continuará a contestar sua inocência e se diz triste com a decisão da exclusão de sua foto.

Segundo o brasileiro, o centro de visitantes do Parque das Emas fica trancado à noite e tem guardas, portanto, ele não poderia ter acesso ao tamanduá empalhado. Ele pretende voltar ao parque ainda este ano para coletar evidências que acredita que o inocentarão.

Lobo ibérico

Em 2009, uma investigação semelhante concluiu que o animal retratado não era nada selvagem, mas sim um lobo manso de um zoológico.

Kidman Cox disse que os jurados estavam sempre atentos à possibilidade de que as fotos pudessem ser encenadas, mas que o artifício poderia ser muito difícil de detectar se os animais em exibição estivessem em uma pose natural em uma cena pouco iluminada.

“Os próprios jurados são escolhidos para incluir uma gama de habilidades e conhecimentos, tanto biológicos quanto fotográficos, e são capazes de questionar a veracidade de uma imagem”, acrescentou ela.

“As regras também deixam claro que a competição defende fotografias honestas e éticas, e elas são traduzidas em vários idiomas para evitar qualquer mal-entendido.”



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