“Este é o Ricardo Bonalume: ótimo jornalista, péssimo funcionário.” Assim, na lata, nosso então chefe me apresentou ao Bona, eu no meu primeiro dia de trabalho na Folha, lá por 87/88, e o Bona chegando atrasado para a reunião de pauta.

O jornal vivia o auge da implantação do Projeto Folha: hierarquia, regras, manuais, uma bem-sucedida tentativa de profissionalização do precário jornalismo do Brasil. E o Bona era oposto daquela rigidez toda: fazia seus próprios horários, caçoava dos chefes, tumultuava reuniões.

​Então por que ele estava ali? Porque ele era o melhor. O mais culto, o texto mais fluente. Não servia para chefe. Era repórter. Excelente. Ninguém podia com o Bona. Ricardo Bonalume Neto era a estrela da editoria da Ciência. E um dos nomes mais conhecidos entre os profissionais do jornal. Eu tinha uns 25 anos e o Bona, 28. Eu o achava incrivelmente velho.

Bona tinha um gosto especial por desrespeitar hierarquias. A um profissional de alto cargo na Redação, que usava gravata borboleta, ele sapecou: “Dois martinis, por favor”.

Um outro, hierarquicamente ainda mais importante, levou uma bola de papel no peito, quando Bona errou o alvo original –um colega que sentava por ali.

Falando em colegas, Bona não aliviava nem para eles (exceto, é verdade, para uma jovem repórter, a quem ele se derretia em galanteios).

Na época, apesar de ser de Ciência, eu também escrevia sobre rock para a Ilustrada. Bona sempre criticava minhas resenhas, dizia que eu encaixava uma ou outra referência científica só para afetar erudição (era verdade). Não falava meu nome, me chamava de “Perada”, apelido que só ele usava.

A única vez em que o Bona demonstrou alguma consideração por mim foi quando descobriu que eu sabia quem era John Keegan, e que tinha lido um livro dele, “The Face of Battle”. Keegan era um historiador militar, e a guerra era uma das paixões do Bonalume.

Bona era diferente até no assunto lide, as primeiras linhas de um texto, nas quais se tenta prender o leitor. Ele achava que o final de uma matéria era tão importante quanto o lide. Caprichava no último parágrafo, certo de que seu texto envolvente tinha trazido o leitor até ali.

Nunca esqueci dessa lição e, durante as décadas em que tive cargos de chefia, sempre infernizei os repórteres: “Essa matéria está sem final, não pode terminar de repente.” Ecos do Bonalume.

Um obituário tradicional traça um perfil, explica uma trajetória. Gostaria de fazer isso, mas não consigo: eu não sabia nada da vida do Bona. Nem eu nem quase ninguém. Antes de começar este texto, troquei mensagens com vários jornalistas de ciência: todos no escuro também.

Mas espero que, mesmo assim, este obituário tenha feito justiça a seu imenso talento. Porque Ricardo Bonalume Neto foi o maior jornalista de ciência da minha geração, senão de todas as gerações.



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