Marcelo Madureira, 60, não quer “fazer a cabeça de ninguém”. “Deus me livre”, diz o integrante do Casseta & Planeta, que em março virou canal de YouTube. “Também não quero que façam a minha”, emenda o humorista.

 

O grupo de humor, que de 1992 a 2010 veiculou na TV Globo o programa “Casseta & Planeta, Urgente!”, integra o casting da produtora de vídeos criada por Madureira e um sócio em 2016. 

 

A empresa foi batizada Flocks, o que, diz ele, designa vagina em polonês. “É uma história que o avô do Bussunda sempre contava. Eu já tinha fundado a [revista] ‘Casseta Popular’. Pensei em fazer algo complementar. Yin-yang. É a boceta.” Madureira, que foi demitido da rádio Jovem Pan, segundo ele, por telefone e sem explicação, recebeu a coluna em sua produtora, no Rio.

HUMOR

A primeira coisa do humor é divertir. Mas ele tem a capacidade de colocar questões. 

 

A piada é aquilo de que você ri. E ela é feita justamente para mexer com os nossos preconceitos e tabus. O humor também serve para a gente se confrontar com aquilo que é quase inconfrontável. 

 

Então eu não vejo limite [para o humor]. Essa coisa de politicamente correto comigo não cola. A bandeira que tenho é a da liberdade do indivíduo. 

 

Um humorista não tem que se alinhar nem com a esquerda nem com a direita. O papel social dele é sacanear. Ele tem que sacanear os dois. 

DIREITA E ESQUERDA

É inconcebível, no século 21, depois da queda do Muro de Berlim, achar que o mundo ainda se divide em esquerda e direita. É uma visão bisonha e equivocada. Mas tudo bem, é o senso comum. 

 

Uma coisa é ser de direita. Outra, é ser liberal. Eu não sou conservador. Sou a favor da descriminalização do aborto, das drogas. Sou a favor do porte de armas. Acho que o cidadão tem que ser tratado como adulto. [O Estado] não tem que dizer o que você tem que fazer ou não. Só minimamente. Óbvio que você não pode matar o outro. Mas ele trata você como se fosse uma criança. E as pessoas gostam disso. Elas querem isso. É um atraso. 

 

Falar “sou liberal na economia e conservador nos costumes” pra mim é igual a semivirgem: não tem. É um confronto com o próprio liberalismo, que tem na essência a liberdade individual. Ou é liberal ou é liberal. Ninguém tem o direito de dizer se eu vou ou não [fazer]. Se a sua religião não permite, problema seu. O Estado é laico.

MOCORONGOS

Nunca vi os brasileiros tão interessados por política. Agora, até onde isso vai contribuir… 

 

Os bolsonaristas são aqueles mocorongos que têm uma visão muito rudimentar de tudo. E eles, no entanto, são uma força política hoje. 

 

Mas o [presidente Jair] Bolsonaro não foi eleito pelos bolsonaristas. Ele foi eleito por eles, mas muito mais pelos antilulistas e antipetistas. 

 

É óbvio que eu torço para o governo dar certo. Porque se não dá, quem se ferra somos nós. E esse aí tem grandes desafios pela frente. O problema maior do Brasil é o corporativismo. Tem que fazer uma reforma profunda do Estado, contrariar muitos interesses.

 

E tem o Congresso. O nível intelectual médio dos parlamentares brasileiros é muito baixo.

DISTRATO FEDERAL 

Eu coloco em dúvida a própria razão de ser da federação. Nós não temos no Brasil nada que nos unifique. Um projeto nacional. Antigamente tinha o futebol, ganhar a Copa. Hoje, nem mais isso. É cada estado contra o outro, cada município contra o outro, cada profissão contra a outra.

 

O que o Nordeste tem a ver com o Rio Grande do Sul? Com o Paraná, Santa Catarina? Eu lamento, mas é um raciocínio que a gente tem que fazer. O que Brasília tem a ver com o Brasil? Brasília foi talvez o maior equívoco da história deste país. Não tem razão de existir. Só cria promiscuidade entre poder e pessoas. A sociedade não consegue controlar o Estado com ele vivendo lá, em um mundo à parte.

 

O que tenho a ver com o Romero Jucá? Com o Renan Calheiros? O projeto que eles têm, se é que têm, não tem nada a ver com o meu. José Sarney? Os maiores próceres da República vêm dos lugares mais atrasados. O Brasil agride o racional. É muito difícil existir uma nação que insiste em agredir a racionalidade.

INTELECTUAIS

Pra mim o Olavo de Carvalho não é relevante como um pensador dito de direita. Tem outros bem melhores e menos, digamos assim, pavões. Acho curioso ele morar nos Estados Unidos e ficar falando sobre o Brasil. Mangabeira Unger é a mesma coisa. É fácil fazer julgamentos de fora. 

OLHO DA RUA

Não tenho a menor ideia do que aconteceu [para ele ser mandado embora da rádio Jovem Pan, no ano passado]. Fui demitido por telefone.

 

[Uma hipótese foi a de que o desligamento ocorreu por ele assinar uma carta contra Bolsonaro]. Não faz sentido. Já fazia tempo que eu tinha assinado. E entendo que a carta não é contra Bolsonaro. Ela é a favor da democracia. Não acredito que o Bolsonaro seja contra a democracia. Quem se propõe a participar de uma eleição é, por essência, democrático. 

 

É curioso: eu estou na lista negra dos bolsonaristas e na dos petistas. Isso me faz intuir que estou no caminho certo. 

 

Acho que foi uma atitude impensada [da emissora]. Eu nunca tinha tido reprimenda. Acredito que alguém pediu a minha cabeça. Pelos anos que trabalhei lá, eu merecia a consideração dessa explicação. 

GLOBO

Nunca tive censura lá [na emissora]. Uma empresa não tem censura. Ela tem uma política interna. Se você discorda, pede demissão. Se não, executa ou tenta negociar. 

 

[Num momento] foi recomendado que a gente [Casseta & Planeta] não falasse de concorrentes. Achavam que falando do Ratinho a gente fazia propaganda dele. Acho que estavam errados. O Ratinho merecia que fizéssemos piada porque ele era relevante. 

 

A Globo acha que é maior do que ela é. Não. Existe vida fora. E hoje se vê claramente. A Globo está numa decadência. Ela faz coisas boas, mas que não repercutem. Porque hoje a Broadway das comunicações é a internet. E a Globo jamais vai conseguir se mover direito nela, porque não tem o DNA. 

 

 

HUMANOS


Apoiei o Aécio Neves. Mas não sabia que por trás da proposta política havia a figura dele. Espanta o quanto ele conseguiu ser venal. Conheço o Sérgio Cabral desde que a gente tinha 15 anos. Ele jogava bola com a gente na Casseta. É inimaginável acreditar o quão perversa é a capacidade do ser humano. 

 

Sempre nos arrependemos dos erros. Mas isso não os justifica nem os diminui. Quem diz que não posso estar equivocado agora? As pessoas criaram uma dificuldade de conversar com aquilo que lhes é diverso. Eu cultivo muito isso. Ninguém é totalmente bom nem mau. O ser humano é fascinante por isso.



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