A prestigiosa revista Wired —considerada a bíblia da tecnologia no Ocidente— trouxe como matéria de capa na última edição um longo artigo sobre biotecnologia no cultivo de alimentos. A revista retrata o uso da técnica de edição genética chamada Crispr para modificar o DNA no cultivo de tomates. Um dos resultados obtidos nos EUA é a criação de frutos com uma haste mais fácil de ser cortada, evitando danos na hora da colheita.

Apesar de a matéria abrir destacando o trabalho de cientistas americanos, os verdadeiros heróis do texto estão no Brasil. Trata-se do botânico Lázaro Peres, da USP, e do geneticista Agustin Zsögön, da Universidade Federal de Viçosa.

O próprio texto diz que o trabalho deles “leva o processo de edição genética dos tomates a um nível completamente novo”. Trabalhando juntos, conseguiram fazer a engenharia reversa do processo de evolução do tomate.

Em outras palavras, conseguiram eliminar da planta todas as mudanças genéticas ocorridas por causa de seleção humana ou natural.

O resultado é a obtenção do tomate em seu estado originário, quando a planta era apenas uma espécie de erva daninha, capaz de produzir um único fruto minúsculo e sem graça, do tamanho de uma ervilha. Voltaram assim à estaca zero evolutiva, criando um proto-tomate.

Ao fazer isso, conseguiram reiniciar o processo evolutivo da planta a partir do zero, batizado de “redomesticação”.

A partir desse proto-tomate, foi possível criar uma nova linhagem evolutiva, sem ter de partir dos erros (ou acertos) do tomate que conhecemos hoje.

Zsögön afirmou para a Wired que esse novo tomate “re-evoluído” é delicioso e tem mais licopeno (o antioxidante que faz o fruto ser vermelho) do que outras espécies.

Esse método abre caminhos promissores. Nos EUA, há planos de usá-lo para redomesticar variedade de cereja da terra, tornando-as tão atraentes quanto as amoras ou os mirtilos. No Brasil, Peres menciona que está trabalhando para redomesticar um tomate selvagem das Ilhas Galápagos, capaz de tolerar climas extremos e longos períodos de seca. Isso pode ampliar a segurança alimentar em um mundo que enfrenta o aquecimento global.

O mais interessante é que essas espécies modificadas com a técnica Crispr não são consideradas como “transgênicas”.

Os alimentos que recebem o selo de transgênico (identificados com uma letra T dentro de um triângulo amarelo no Brasil) recebem genes adicionais, até mesmo de outras espécies (daí o apelido de “comida frankenstein”).

Já essas mudanças feitas com a técnica Crispr apenas suprimem genes —mantendo a estrutura genética original— e não adicionando nada de novo.

Aliás, vale lembrar que está em fase de votação final no Senado a lei que acaba com a obrigatoriedade de incluir o selo de transgênico nos produtos vendidos no Brasil. Uma enquete sobre o projeto no site do Senado recebeu 26 mil votos contra a mudança e apenas 1.000 votos a favor.

A visibilidade internacional do trabalho de Peres e Zsögön em uma das principais revistas do planeta mostra que a ciência brasileira pode ter impacto global. É um fato importante para nos lembrar que outro Brasil é possível. Mesmo após o forte significado da tragédia do Museu Nacional.

 

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