A pesquisadora Marcia Barbosa, 58, divide seu tempo entre o estudo das propriedades químicas e físicas da água, que lhe valeram láureas importantes como o Prêmio L’Oréal-Unesco para Mulheres na Ciência, e a luta contra o assédio sexual na universidade e a favor da igualdade de gênero na ciência.

Professora titular do Instituto de Física da UFRGS e membro titular da Academia Brasileira de Ciências —onde a participação feminina é de meros 14%—, ela percorre o país denunciando as injustiças e violências que atingem e ferem mulheres nas universidades e centros de pesquisa nacionais.

Num momento em que denúncias de assédio sexual grassam nos mais diversos ambientes profissionais, Barbosa deixa claro que a academia não constitui exceção. Pelo contrário. “Assédio é algo frequente dentro da universidade”, disse à Folha a pesquisadora, que já foi vítima da prática. Apesar disso, afirma, as instituições ainda preferem fingir que esse problema não existe.

Barbosa teme que seja preciso um grande escândalo para que esse silêncio seja rompido. “Eu noto que as meninas hoje verbalizam muito mais aquilo que elas discordam do que as da minha geração, e vai chegar uma hora em que elas vão abrir a boca para denunciar.”

 

 

O assédio sexual é algo comum dentro da universidade?

​Sim, é algo frequente. Eu constato isso no fato de que todas as vezes em que eu falei sobre o tema nos últimos anos, nos mais diversos lugares, mulheres vieram me procurar depois das palestras para contar que elas passaram por isso dentro da universidade. Um dos poucos dados que temos sobre o assunto vem de uma pesquisa feita pelo Instituto Avon em 2015, na qual 56% de alunas de graduação e pós disseram já ter sofrido assédio de professores, estudantes e técnicos administrativos.

É comum ouvir mulheres dizendo que não vão trabalhar em determinada área por medo de assédio. Mais do que uma questão individual, o assédio é um fenômeno de exclusão.

Se o assédio é frequente, por que os casos não vêm à tona?  

Por muitas razões. A principal é o medo que as vítimas têm. Medo de serem retaliadas, de ninguém acreditar nelas, de ficarem marcadas, de terem suas carreiras prejudicadas.

Além disso, os órgãos universitários competentes não são preparados para essa tarefa. Eles não conseguem nem fazer a pessoa se sentir confortável para contar um caso de assédio.

Outro fator é o ambiente de negação dessa realidade. O professor e a professora corretos, que constituem a maioria dos docentes, em geral não acreditam que um colega seja capaz de assediar alunas ou alunos. Fica parecendo que o problema não existe.

E o que é preciso para que esse silêncio seja rompido?

Meu maior temor é que isso só ocorra em decorrência de um grande escândalo. Eu noto que as meninas hoje verbalizam muito mais aquilo que elas discordam do que as da minha geração, e vai chegar uma hora em que elas vão abrir a boca para denunciar.

Enquanto só uma ou outra falar, vão dizer que é mentira, que são loucas, mas quando elas se unirem, quando cinco ou seis se levantarem e acusarem a mesma pessoa, vai se iniciar um processo disruptivo e descontrolado dentro da universidade, algo como o movimento “me too” nos EUA. E junto com os muitos casos verdadeiros, acabarão vindo também os falsos positivos. 

A universidade deveria se preocupar, porque esse processo pode miná-la seriamente. A outra opção é que as instituições resolvam olhar para si e busquem corrigir esse problema. Dessa forma, a questão do assédio poderia ser equacionada de forma muito mais consciente. Mas a universidade ainda prefere fingir que esse problema não existe.

O que a universidade poderia fazer para reduzir o problema? 

Precisaria, em primeiro lugar, ter mais do que ouvidorias. Hoje, o trabalho delas se resume a receber uma reclamação e repassar para o diretor da unidade onde ocorreu o caso. Mas esse diretor não é nem um pouco capacitado para resolver questões de recursos humanos. Deveríamos, por exemplo, ter um setor com psicólogos e outros profissionais que tenham treinamento para lidar com pessoas.

A universidade também precisa regular esse assunto de alguma forma. Por exemplo, se alguém vai fazer um experimento com animais em laboratório, ele precisa submeter o projeto a um comitê de ética animal. O pesquisador também precisa ser cuidado com seus dados, não pode plagiar outros trabalhos etc. Temos uma série de regras para os dados que produzimos e para os animais que usamos, mas não temos regras para o relacionamento entre as pessoas.

Por quê? 

Porque, no fundo, nós, da academia, zelamos pelo conhecimento. E já identificamos que a qualidade do tratamento dado aos animais, assim como a qualidade dos dados, é importante para a qualidade dos resultados. Mas nós ainda não nos demos conta de que quando abusamos de outro ser humano, estamos prejudicando a produção de conhecimento na ciência. 


Não são todos que fazem isso, é uma minoria, mas essa minoria provoca medo constante nas pessoas, e isso inibe todo o processo criativo, educacional e a convivência dentro do meio acadêmico. Em universidades de países desenvolvidos é inaceitável que haja uma relação afetiva entre professor e aluno. Ponto. Assim, não se dá margem para mal-entendidos.

Para deixar claro, que práticas constituem assédio? 

A forma mais escancarada é aquela em que o cara te agarra à força, como já aconteceu comigo. Mas há formas mais sutis, por exemplo, um professor que acaricie as costas de uma aluna, como se a estivesse consolando, que fique segurando seu braço, tocando a pessoa por muito tempo, ou que sugira a ela um passeio a sós. 

Comentários sobre a roupa que a pessoa está usando ou uma pergunta sobre se ela tem namorado. Parecem coisas ingênuas, mas por que um professor tem de perguntar isso a uma aluna?

Pode contar esse assédio que você sofreu?

Aconteceu num evento científico no Brasil no final dos anos 1990. Eu ia sair para comer algo com um pesquisador de outro país, mas estava carregando várias coisas, laptop etc. Estávamos no 1º andar do hotel, onde ficava o quarto dele; o meu ficava andares acima. Ele me disse então para deixar as coisas no quarto dele. Quando eu entrei, ele me agarrou. Eu disse ‘não, acho que isso é um mal-entendido’. Ficou um clima horroroso, eu me despedi e fui embora para o meu quarto. 

Ele era uma pessoa razoavelmente importante, editor de revista científica. Foi duro, mas sobrevivi. Nem todas conseguem. Eu tive sorte de essa pessoa ser de outro país. Do contrário, as consequências teriam sido muito maiores.

Por quê?

Na universidade, em muitos momentos da carreira você é julgada por pessoas da mesma área, seja para a concessão de uma bolsa, uma promoção, um prêmio. Quando uma pessoa assedia outra e esta não corresponde, ela passa a querer retaliar essa pessoa, e é isso que muitas mulheres temem.

Se o assediador for o orientador, há um problema a mais, pois ou você o denuncia e tem que encerrar a orientação —perdendo anos de trabalho, uma bolsa— ou você vai ter que conviver com essa pessoas até o fim desse período. E o trabalho de pesquisa é um trabalho muito próximo. Você fatalmente vai acabar ficando a sós com essa pessoa de novo.

E como o assédio na universidade impacta a vida de quem o sofre? 

Há um aspecto perverso do assédio sobre a autoestima da vítima. Tome o caso de uma aluna que recebe muita atenção do seu orientador ou de um professor. Ela acha que essa atenção é devido à inteligência dela, à qualidade do trabalho que ela realiza. Quando essa aluna sofre um assédio, ela percebe que esse orientador ou professor estava só interessado no corpo dela, e isso é destruidor.

Ciência tem a ver com autoconfiança. Você precisa acreditar nas suas ideias. Como é que você pode acreditar em si mesmo, se a pessoa mais próxima de você, que deveria te formar, te ensinar, deixa claro que o que interessa a ele é o seu corpo?

Nos últimos anos, vimos a emergência de muitos casos de assédio, boa parte deles revelados pela mídia. Por que você acha que isso tem acontecido? 

O assédio sempre ocorreu, mas creio que nos últimos tempos as pessoas não têm mais engolido as estruturas de poder que favoreciam essa prática. No caso da universidade, a relação dentro da sala de aula mudou muito. No meu tempo, o que o professor falava era verdade; hoje, os alunos discutem, questionam.

Apesar dessa mudança de atitude, falta uma estrutura em que elas possam se apoiar e confiar, e a mídia ainda é uma instituição que as pessoas confiam e para a qual se sentem seguras para denunciar coisas desse tipo.


Você, universitária ou universitário, já sofreu assédio sexual de professores, orientadores ou alguém hierarquicamente superior? A Folha quer saber. Aqueles que quiserem dar voz a suas histórias e/ou denúncias podem entrar em contato pelo email [email protected].

​Os relatos podem ser identificados ou anônimos.



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