Um misto de homenagem e pesar marcou o Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa, em Pasadena, na Califórnia, durante o que foi essencialmente a cerimônia de encerramento da mais longeva missão robótica a outro planeta. O jipe Opportunity chegou a Marte em 25 de janeiro de 2004, e a última tentativa de comunicação com ele transpirou nesta terça-feira (12), mais de 15 anos após suas primeiras transmissões do solo marciano — sem resposta.

“Com um senso de apreciação e gratidão, eu declaro que a missão do Opportunity está completa”, disse Thomas Zurbuchen, vice-administrador de ciência da agência espacial americana, prefaciando uma apresentação sobre as incríveis conquistas da missão. E não foram poucas.

O começo do fim foi no dia 13 de junho do ano passado. Um tempestade de poeira dominou a região de Meridiani Planum, com uma intensidade jamais observada antes durante a missão. Tempestades desse tipo — por vezes capazes de engolfar o planeta inteiro — são comuns em Marte. Nessas ocasiões, a poeira bloqueia de tal modo a luz solar que equipamentos que dependem dela para gerar eletricidade sofrem blecautes.

Com efeito, em julho de 2007, o Opportunity e seu “irmão gêmeo”, o Spirit, enfrentaram uma tempestade de poeira global que poderia ter encerrado a missão ali mesmo. Ambos sobreviveram, em mais um marco de uma missão que já havia batido vários recordes. A expectativa original era que ambos durassem 90 dias apenas. Os dois duraram muito mais. O primeiro a falhar foi o Spirit, explorando a cratera Gusev, depois de enfrentar um problema de locomoção em 2009 e, por fim, deixar de se comunicar com a Terra, no ano seguinte.

O Opportunity, num terreno mais clemente, teve durabilidade maior e em 2014, depois de completar dez anos em Marte, tornou-se o jipe robótico espacial com maior distância percorrida, ultrapassando o Lunokhod 2, soviético, que em 1973 avançou por 39 km no solo lunar. Mas a tempestade de 2018 foi ainda mais severa, cortando o suprimento de energia do Opportunity. Até a perda de contato, em junho, seu odômetro marcava 45,16 km.

No fim de agosto, a tempestade começou a se dissipar, e a Nasa intensificou as tentativas de contato. Nada. No início de outubro, as condições atmosféricas já haviam voltado completamente ao normal, mas só se ouviu silêncio do pequeno jipe. E assim as coisas prosseguiram, até esta terça-feira. A partir de agora, não haverá outras tentativas de contato. É oficialmente o fim.

O LEGADO
Ao longo de muitos anos e quilômetros de exploração, os Mars Exploration Rovers, Spirit e Opportunity, foram os primeiros a colher evidências em solo marciano sobre a presença de água líquida na superfície do planeta vermelho em seu passado remoto.

“Nossos jipes eram geólogos”, diz Steven Squyres, cientista-chefe do projeto. “E geologia é como ciência forense. Alguma coisa aconteceu em um lugar, há muito tempo, e o objetivo é procurar as pistas nas rochas sobre o que teria acontecido ali.”

E foi isso basicamente o que os dois jipes fizeram, buscando as evidências mineralógicas da interação das antigas rochas marcianas com fluxos de água que correram pelo planeta bilhões de anos atrás. “Marte hoje é frio, seco, desolado, um lugar em que não muita coisa acontece”, comenta Squyres. “Mas, muito tempo atrás, era um lugar quente, violento, vaporoso. Muita coisa estava acontecendo. Impactos. Explosões vulcânicas. E, de forma mais entusiasmante, encontramos evidências de atividade hidrotermal. Fontes quentes de água. Pode soar como um lugar assustador, mas é um lugar muito, muito adequado para alguns tipos de micróbios resistentes.”

Em essência, os estudos propiciados pelos jipes Spirit e Opportunity inauguraram o estudo do passado habitável de Marte, esforço que segue orientando o programa de exploração marciano até hoje, com o jipe Curiosity, operando no planeta vermelho desde 2012,  e com mais dois rovers a serem lançado na próxima janela de oportunidade, o Mars 2020 (da Nasa) e o ExoMars (da ESA, agência espacial europeia), recém-batizado Rosalind Franklin, em homenagem à pioneira do estudo da estrutura do DNA nos anos 1950.

Outro legado de uma missão tão longeva é de inspiração: uma nova geração de cientistas e engenheiros acaba sendo formada ao longo da missão. Com efeito, Abigail Fraeman, vice-líder de ciência da missão desde 2016, estava apenas no ensino médio quando o Spirit e o Opportunity pousaram em Marte, em 2004. Em meio a fotos de uma visita dela, como estudante, ao JPL durante o pouso dos jipes, ela contou que ver aquelas primeiras imagens chegando foram o que a inspirou a se tornar uma cientista planetária.

“E esta história não é singular. Há literalmente centenas, se não milhares, de pessoas que, por causa daquelas imagens, decidiram construir uma carreira em ciência, educação e matemática”, disse.

Falando sobre a longevidade do projeto, Michael Watkins, diretor do JPL, indica que ela formou um novo “paradigma para exploração do Sistema Solar”. De fato, é o novo (e talvez injusto) padrão esperarmos que futuras missões marcianas durem muitos anos, como ocorreu com o Opportunity.

A duração inesperadamente longa fez os pesquisadores envolvidos com o projeto se adaptarem para manter o trabalho com o jipe em paralelo com suas outras atividades. Entre eles está Paulo Antônio de Souza Júnior, físico brasileiro que atualmente trabalha na CSIRO, organização científica australiana, e manteve seu vínculo com a equipe científica da missão desde o início, tendo ajudado a desenvolver um dos instrumentos de análise mineralógica do jipe.

“Todos nós nos preparamos para uma missão de três meses e sonhávamos conseguir uma evidência direta da presença de água em Marte”, disse Souza Júnior ao Mensageiro Sideral. “Oppy foi nossos pés, mãos e olhos em Marte. Observamos eclipses solares, dust devils, crateras com uma riqueza de detalhes que nos trouxe Marte tão próximo que parecia o nosso próprio quintal. A presença de água no passado marciano veio com uma excepcional sequência de evidências que transformaram o nosso entendimento a respeito do nosso Sistema Solar.”

“Eu me sinto absolutamente privilegiado pela oportunidade de trabalhar por mais de 15 anos com uma equipe fantástica de engenheiros e cientistas”, prossegue o cientista brasileiro. “A missão pode ter chegado ao seu fim, mas há muitos dados ainda por serem analisados e espero que o Opportunity sirva de inspiração para uma nova geração de cientistas e engenheiros brasileiros. De algum modo, Spirit e Opportunity fizeram do português a segunda língua mais falada em Marte — de tanta música brasileira que tocamos para acordar os jipes.”

John Callas, gerente do projeto, ajuda a explicar o segredo de tamanho sucesso. “Duas coisas: primeiro, esperávamos que a poeira fosse se acumulando sobre os painéis solares e tornasse a missão inútil em 90 dias. Mas o que descobrimos é que o vento, de vez em quando, limpa os painéis. E num ciclo sazonal bastante confiável. Isso permitiu que sobrevivêssemos aos invernos”, diz. “E a outra coisa é que tínhamos as melhores baterias em todo o Sistema Solar. Tivemos mais de 5.000 ciclos de carga e descarga nela. E elas ainda mantinham 85% da capacidade de carga!”

E, claro, a despeito dos bons resultados, é importante também descobrir o que aconteceu para encerrar a missão do Opportunity. A suspeita dos engenheiros, segundo Callas, recai sobre um protocolo desenvolvido pela missão para que o jipe sobrevivesse às noites marcianas, conhecido como “sono profundo”, em que todos os dispositivos são desligados durante a noite, inclusive o dispositivo de aquecimento dos circuitos internos, que originalmente era para ser ligável e desligável, mas por alguma razão permanecia o tempo todo ligado.

Uma vez que o Opportunity entrou em hibernação pelo corte do suprimento de eletricidade em razão da tempestade de poeira, ele perdeu a marcação de tempo de seu relógio interno, o que em tese o impediria de seguir o protocolo de “sono profundo”. Com isso, sempre que os painéis solares tentam dar carga à bateria, o dispositivo de aquecimento é ligado e rapidamente drena qualquer energia, que o jipe faça qualquer outra coisa ou retome contato com a Terra.

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