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Aos 77 anos, Bernardo Riedel trabalha de 10 a 12 horas por dia. Até mais, se for uma noite de céu claro, quando aproveita a boa visibilidade para testar os telescópios que produz num galpão no bairro do Horto, em Belo Horizonte. Dali, Riedel calcula já terem saído mais de 1.500 instrumentos fabricados por ele com a ajuda de dois assistentes.

Riedel pesa 50 kg -o equivalente a dois telescópios e meio que produz- e seu rosto lembra o de Carl Sagan mais magro. Os funcionários auxiliam sobretudo na parte mecânica dos instrumentos. O domínio da parte óptica, no entanto, como o polimento de espelhos e lentes, é exclusividade do “professor”, como é chamado.

Ele se formou em farmácia e bioquímica na Universidade Federal de Minas Gerais e deu aulas a partir de 1970. Trabalhou como óptico do Observatório de Serra da Piedade, a 50 km de Belo Horizonte, até se aposentar, em 2000.

Em uma noite de agosto deste ano, um ladrão invadiu seu galpão de trabalho e levou furadeiras, lixadeiras e outros equipamentos. “Ele deitou e rolou, escarafunchou até encontrar”, diz. Sem peças e ferramentas, a fábrica parou. Uma “vaquinha” on-line, criada por amigos, arrecadou pouco mais de R$ 9.000 e o ajudou a retomar a produção.

Mesmo antes da invasão, os negócios não iam bem. Riedel atribui a um milagre a sobrevivência da empresa, que já tem quase 40 anos. “Não dá dinheiro fabricar telescópios no Brasil”, diz. Para manter o negócio, vendeu diversos imóveis da família. Dirige um Volkswagen Santana, modelo perua Quantum, ano 1991, que já acumula quase 300 mil km. “Mais um pouco e já chego na Lua.”

Marcos Adalberto, que trabalha com Riedel há 18 anos, viu a vaga de torneiro mecânico em um anúncio no jornal. Não imaginava que o futuro emprego seria, para a alegria das duas filhas, em uma fábrica de instrumentos astronômicos. “Elas falaram orgulhosas no primeiro dia de aula: ‘Meu pai faz telescópios!'”

“Aqui a tecnologia é própria, brasileira, mineira”, diz Riedel, que até admira a capacidade de produção dos rivais chineses, mas condena a qualidade final dos produtos que chegam aqui. Os modelos da B. Riedel -o nome da empresa- variam de acordo com os pedidos dos clientes. Demoram até três meses para serem feitos e custam entre R$ 1.000 e R$ 5.000.

Todos os telescópios fabricados por ele são da categoria refletores, que utiliza espelhos côncavos e convexos para aproximar a imagem. Existem ainda os refratores, que utilizam lentes, e os catadióptricos, que utilizam um sistema misto.

OBSERVATÓRIOS

Além dos telescópios, Riedel constrói também observatórios. Já são mais de 15 espalhados pelo Brasil, destinados principalmente a escolas e universidades. Em Altos, no Piauí, há uma estação astronômica que leva seu nome.

Nos momentos em que não está na oficina -“só sobram os domingos e olhe lá”-, Bernardo estuda e ouve música clássica. Rossini, Beethoven e Wagner estão entre os favoritos, “apesar de Wagner ter sido um grande de um antissemita”.

Judeus, os pais de Bernardo vieram ao Brasil fugindo do nazismo na Alemanha. Ele lembra do dia em que a mãe recebeu a carta da Cruz Vermelha informando a morte dos familiares que ficaram na Europa. “Eu era menino, lembro dela rolando no chão e arrancando os cabelos.”

O futuro da B. Riedel sem seu criador é incerto. O “professor” tem dois filhos, mas nenhum se interessa em continuar com a fábrica. Enquanto tiver condições, Riedel pretende seguir trabalhando. No momento, planeja o desenvolvimento de um telescópio controlado por um aplicativo de celular.

Na década de 1960, ele iria com a turma de colegas da UFMG até um congresso no Rio de Janeiro. Na última hora, abandonou os planos. Os que seguiram viagem morreram em um acidente no Viaduto das Almas, a 60 km de BH. “Era como se Deus tivesse falado: ‘Não, você vai sofrer mais, você vai vender telescópios no Brasil’.”



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