Em sua primeira visita ao Brasil, a bióloga que mais contribuiu para a compreensão e a preservação dos oceanos nos últimos 50 anos alertou que é burrice apostar numa oposição entre crescimento econômico e proteção ambiental.

“O atual governo dos EUA parece acreditar que essa oposição existe, mas a verdade é que o principal acionista da economia é o ambiente”, afirma a pesquisadora americana Sylvia Earle, 82, que lança nesta segunda (5) a edição brasileira de seu principal livro, “A Terra é Azul”, em palestra em São Paulo.

“Ao longo da história humana, prevaleceu a tendência de achar que o ar que respiramos, a água que cai do céu e os animais que capturamos são de graça. Hoje sabemos que essa ideia está errada, mas as políticas públicas não conseguiram se atualizar de acordo com o novo conhecimento que obtivemos”, diz.
“Quando colocamos os sistemas naturais na balança de pagamentos, fica óbvio que cuidar do ambiente é bom para os negócios”, completou Earle em entrevista à Folha.

Ela conclui o raciocínio citando o presidente americano Ronald Reagan (1911-2004), um dos ícones da direita dos EUA: “Proteger o ambiente não é um tema liberal ou conservador, é só bom senso”.

Earle, que é exploradora-residente da National Geographic e passou por instituições como Universidade Harvard e Academia de Ciências da Califórnia, celebrizou-se no começo dos anos 1970 ao se tornar uma das primeiras mulheres a participar de experimentos de sobrevivência humana em ambientes subaquáticos.

Estudiosa da diversidade de espécies de algas do planeta, ela também é inventora, dedicando-se a desenvolver mini-submarinos e trajes de mergulho voltados à exploração das áreas mais profundas e escuras dos oceanos.

ALCATRAZES E TEMER

Antes de lançar seu livro, ela passou a tarde deste domingo (4) conhecendo a parceria entre a Marinha brasileira e o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) no arquipélago de Alcatrazes, a cerca de 50 km de São Sebastião (litoral paulista).

As ilhas, que tinham chegado a sofrer considerável degradação em meados do século passado, hoje têm ambientes recuperados e estoques pesqueiros em crescimento, segundo o ICMBio.

“Cuidar da vida dos oceanos é um tema de defesa não só nacional como também planetária”, disse Earle ao vice-almirante Antonio Carlos Soares Guerreiro, que a recebeu em São Sebastião. Em seguida, ela visitou Alcatrazes em helicóptero da Marinha.

Earle também deverá se reunir com o presidente Michel Temer para defender a criação de um grande conjunto de reservas ambientais marinhas no Brasil, reivindicação antiga de pesquisadores e ambientalistas que está em estágio avançado de formulação.

“O Brasil foi abençoado com recursos naturais excepcionais na terra e no mar. Agora temos uma oportunidade sem precedentes de protegê-los no longo prazo, evitando consumi-los apenas para obter ganhos imediatos”, diz ela.

Nas últimas décadas, houve diversos sinais de problemas sérios nos ambientes marinhos —como a perda de 90% ou mais da população de quase todos os peixes pescados comercialmente ou episódios de mortandade maciça de corais, hoje cinco vezes mais comuns do que nos anos 1980, graças ao aquecimento global.

Mas vozes céticas em relação às mudanças ambientais têm se tornado comuns. Como antídoto ao ceticismo anticientífico, Earle dá uma dica simples: converse com parentes ou amigos mais velhos.

“Fale com um avô, uma tia ou um tio e pergunte: que plantas e animais eles costumavam ver sempre quando crianças e não aparecem mais? Pergunte a um pescador mais velho quais peixes ele consegue pegar hoje e o que ele pegava há 20 anos ou 30 anos atrás. Dê uma olhada em fotografias antigas e tente compará-las com os mesmo lugares hoje. A taxa com que as mudanças têm acontecido é de tirar o fôlego, e as evidências dos impactos humanos estão mais do que claras.”

PROFUNDEZAS

Conforme essas transformações vão acontecendo, entender como oceanos saudáveis funcionam está virando uma corrida contra o tempo, em especial no que diz respeito às áreas mais profundas, ainda pouco estudadas.

Em parte, diz a bióloga, isso se deve à falta de instrumentos e recursos: a maioria dos submersíveis tripulados e submarinos-robôs capazes de chegar ao oceano profundo já tem “emprego fixo” na exploração de petróleo e gás, e não na pesquisa científica.

“É muito importante que consigamos estudar o mar profundo antes de conceder permissões para atividades como mineração, em especial levando em conta o papel desses lugares em sequestrar carbono [evitando, assim, o avanço das mudanças climáticas, causadas pelo aumento de gases como gás carbônico na atmosfera] e abrigar espécies e ecossistemas únicos.”


Palestra e lançamento do livro ‘A Terra é Azul’
DATA: Segunda (5), às 8h30 
LOCAL: Prédio da Fiesp (av. Paulista, 1313, Teatro do Sesi, São Paulo, SP)
INSCRIÇÕES: www.fiesp.com.br/agenda/palestra-e-lancamento-do-livro-terra-e-azul-porque-o-destino-dos-oceanos-e-o-nosso-e-um-so


RESERVA

A visita de Sylvia Earle ao Brasil também deve servir como um empurrãozinho significativo em favor da criação de um grande conjunto de reservas naturais marinhas em águas profundas. 

Se tudo caminhar conforme o esperado, o país transformará em unidades de conservação cerca de 
900.000 km² de ilhas e oceano nos arquipélagos de São Pedro e São Paulo e Trindade e Martim Vaz.

Espera-se que a pesquisadora defenda a iniciativa em audiência com o presidente Michel Temer.

Com isso, de uma tacada só, as áreas protegidas marinhas passariam de apenas 1,5% do Atlântico sob jurisdição brasileira para cerca de 25%, algo que equivale a toda a área terrestre da região Sudeste. 

A ideia é que a maior parte desse total seja formada por duas APAs (Áreas de Proteção Ambiental), nas quais atividades econômicas como a pesca são possíveis, ainda que sob regulação mais estrita, enquanto trechos menores serão transformados em Monumentos Naturais, que recebem proteção integral.

“Todo mundo tem seguido esse caminho”, afirma José Pedro de Oliveira Costa, secretário de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente. 

“Nem dá para classificar a medida como um gesto de bravura imensa, porque é algo que também contempla um alargamento da soberania nacional, não só do ponto de vista ambiental como também pelo lado econômico e geopolítico.”

Proteger melhor ambos os conjuntos de ilhas levaria, por exemplo, um uso mais ordenado da chamada ZEE (Zona Econômica Exclusiva), a fatia de oceano no entorno dos arquipélagos sobre a qual o Brasil tem direitos soberanos de exploração de recursos naturais (num raio de cerca de 400 km). 

“O Chile, o México e a Colômbia adotaram medidas semelhantes, assim como o Reino Unido”, diz Costa. Segundo o secretário, a Marinha continuará sendo a responsável por tomar conta dos arquipélagos, mas poderá contar com mais recursos, vindos tanto de programas nacionais de compensação ambiental quanto da cooperação com parceiros internacionais.

RAROS E BELOS

Além da beleza de ambos os locais dentro e fora d’água, que justifica a categoria de Monumento Natural, os arquipélagos são grandes laboratórios da biodiversidade e da geologia do Atlântico.

Há dezenas de espécies endêmicas (ou seja, que só ocorrem ali e em nenhum outro lugar do mundo) de peixes, por exemplo, e um estudo recente feito por pesquisadores do Brasil e dos EUA mostrou que os processos de surgimento dessas espécies seguem um padrão diferente do visto em animais insulares de terra firme. 

Além disso, Trindade é um dos poucos locais de desova da tartaruga-verde (Chelonia mydas) no Atlântico Sul.

Além de disciplinar a pesca e ajudar espécies sensíveis a recuperar sua população, a criação das reservas também deve facilitar a regeneração da mata nativa de Trindade, devorada por cabras originalmente trazidas por marinheiros britânicos. Até o século 17, por exemplo, árvores da espécie Colubrina glandulosa eram numerosas na ilha. 

“A Marinha eliminou as cabras do arquipélago e, graças ao bom Netuno, a vegetação está voltando”, brinca Costa.

A criação das unidades de conservação está na fase final de consultas públicas, que vai até o dia 10 de março. A partir daí, caberá a Temer a decisão final sobre as reservas. 



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