Após anos de esforços para impedir o assédio sexual na ciência, engenharia e medicina fracassaram, e as universidades dos Estados Unidos precisam adotar mudanças abrangentes na maneira pela qual lidam com o assunto, de acordo com um novo relatório divulgado por uma comissão consultiva nacional nesta terça-feira (13).

“Não existem provas que sugiram que as normas, procedimentos e abordagens em vigor tenham resultado em redução significativa no assédio sexual”, afirma o relatório, cuja preparação, iniciada bem antes do movimento #MeToo, demorou mais de dois anos.

O documento foi divulgado pela Academia Nacional de Ciências, pela Academia Nacional de Engenharia e pela Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos, organizações independentes que assessoram o governo e o público.

O painel ofereceu 15 recomendações detalhadas, algumas das quais forçariam mudança em práticas acadêmicas bem estabelecidas. As instituições teriam de reformar seu sistema de orientação acadêmica, para que estudantes e pesquisadores iniciantes não dependam de um único pesquisador mais experiente para avanço profissional e acesso a verbas de pesquisa.

O relatório também insta os legisladores a aprovar leis que permitam que pessoas abram processos por assédio diretamente contra membros do corpo docente e não só contra a universidade, e para que funcionários que encerram queixas sobre assédio por acordo não tenham direito a manter segredo sobre essas queixas quando estiverem em processo de admissão por outro empregador acadêmico.

O documento de 311 páginas é o primeiro relatório das três academias a tratar de assédio sexual, um problema que há muito afeta os laboratórios e as salas de aula das universidades americanas, e algumas pessoas preveem que ele talvez estimule mudanças significativas.

“Os relatórios das academias nacionais têm peso substancial”, disse Carol Bates, diretora associada de assuntos docentes na Escola de Medicina da Universidade Harvard e coautora de um recente artigo que apela por “tolerância zero ao assédio sexual na medicina acadêmica”.

Mas, ela apontou, “nada disso é fácil, ou já teria sido corrigido. Tampouco corrigimos essa situação em qualquer outro dos demais domínios da sociedade”.

Os lugares de trabalho acadêmicos ficam atrás apenas das forças armadas em termos de incidência de assédio sexual, e 58% dos funcionários de instituições acadêmicas afirmam ter passado por esse tipo de experiência, de acordo com um estudo citado no relatório.

Entre os dados sobre estudantes em campos acadêmicos, o relatório cita um levantamento do sistema universitário do Texas, em 2017, que constatou que cerca de 20% das mulheres alunas de ciências, mais de 25% das alunas de engenharia e mais de 40% das alunas de medicina passaram por assédio sexual, da parte de professores ou funcionários.

A questão é delicada, para as academias nacionais, porque alguns de seus membros foram responsabilizados por delitos de conduta sexual em suas universidades. Respondendo a perguntas em um briefing sobre o relatório, Bruce Darling, que representa as academias, disse que as instituições estavam considerando excluir membros que pratiquem assédio, mas que fazê-lo seria um processo longo e dependente da votação dos demais membros, e que, portanto, outras medidas estão sendo consideradas, enquanto isso.

A comissão disse que as universidades e outras instituições se concentraram excessivamente em “cumprir simbolicamente as leis existentes, e evitar responsabilidade legal, em lugar de agir na prevenção do assédio sexual”. O medo da responsabilidade judicial por casos de assédio pode ter impedido diversas instituições de até mesmo avaliarem os seus programas, afirma o relatório, porque se o fizessem “provavelmente teriam constatado que não eram efetivos”.

“Precisamos deixar para trás essa mentalidade de cumprir obrigações jurídicas e evitar responsabilidade legal, e pensar sobre maneiras pelas quais possamos mudar o clima”, disse Paula Johnson, reitora do Wellesley College e copresidente da comissão que produziu o relatório, em entrevista.

A comissão identificou três tipos de assédio sexual: coerção sexual, atenções sexuais indesejadas e intimidação de gênero. Segundo o estudo, a intimidação de gênero, “comportamentos verbais e não verbais que transmitem hostilidade, objetificação, exclusão ou status inferiorizado”, era por larga vantagem a experiência negativa mais comum para as mulheres.

“Em contraposição às cantadas, podemos classificar esse comportamento como menosprezo”, disse Johnson, cardiologista e antiga diretora da divisão de saúde feminina no Brigham and Women’s Hospital. Ela disse que a intimidação de gênero cria uma cultura que fomenta outras formas de assédio sexual.

A comissão afirmou que a intimidação de gênero era mais presente na medicina que nas demais ciências, em parte porque ela pode vir, além dos colegas, também de pacientes.

De qualquer forma, o custo para as mulheres —e em termos da capacidade das ciências para reter todos os talentos possíveis— pode ser alto, mesmo que as consequências não pareçam tão sérias, no começo, afirmou a comissão.

A intimidação “solapa o trabalho e o bem-estar de numerosas maneiras”, causando sintomas como depressão, sono perturbado, tensão cardíaca e distúrbio de estresse pós-traumático, disse Lilia Cortina, membro da comissão e professora de psicologia e estudos da mulher na Universidade do Michigan. Ela disse que as experiências podem ser piores para as mulheres não brancas e para as mulheres lésbicas, bissexuais e transgênero. Mas também afetam aqueles que testemunham esse comportamento, o que atrapalha ainda mais o trabalho científico.

“As mulheres deixam a cena, suas colegas fazem o mesmo, e até os homens o fazem —ninguém quer ver um colega sendo humilhado, e certamente ninguém quer ser a próxima vítima”, disse Cortina no briefing.

Um paradoxo é que a ênfase acadêmica em avanço profissional baseado em mérito pode desencorajar as mulheres de denunciar assédio, porque isso poderia limitar seu progresso profissional, apontou a comissão. “O sistema da meritocracia não leva em conta os declínios de produtividade e o moral baixo que o assédio sexual causa”, diz o relatório. “Isso pode levar uma profissional a questionar seu valor como cientista. Também pode fazer com que a realização científica pareça não valer a pena”.

Isso pode explicar, ao menos em parte, um outro paradoxo. “O número de mulheres nesses ramos é maior [que o de homens], e ainda existe assédio sexual”, disse Elizabeth Hillman, reitora do Mills College e membro da comissão, cuja especialidade são casos de agressão sexual nas forças armadas.

Billy Williams, membro da comissão e diretor de ciência da União Geofísica Americana, disse que o simples cumprimento das leis de igualdade sexual não basta, porque a lei presume que as mulheres apresentarão queixas formais, quando na verdade o medo de retaliação “faz essa resposta ser a menos comum”. Como resultado, disse Johnson, as universidades deveriam estabelecer caminhos menos formais para que as mulheres relatem suas experiências.

O relatório não avaliou os processos investigativos, a imposição de medidas disciplinares ou os direitos dos acusados de assédio, limitando-se a afirmar que os procedimentos e consequências deveriam ser justos para todos os envolvidos. A comissão afirmou que as instituições deveriam criar programas de treinamento cujo foco seja a mudança de comportamento, e não de convicções.

Os programas deveriam ser avaliados em termos de efetividade, em lugar de “terem por base como melhor evitar a responsabilidade legal”. Quando as instituições consultam pessoas sobre suas experiências de assédio sexual, devem usar questionários validados, e “evitar o uso específico do termo ‘assédio sexual’, nas perguntas”.

Nos últimos anos, o sistema universitário estadual do Texas adotou muitas das medidas recomendadas pelo relatório, disse Wanda Mercer, diretora associada de assuntos discentes da Universidade do Texas, entre as quais divulgar os resultados de pesquisas e criar modos mais informais para que casos de assédio sexual sejam relatados.

Mas, ela acautelou, “creio que mudar o clima seja muito difícil. Creio que será difícil fazê-lo porque o ensino superior existe há muito tempo, e as estruturas de poder estão bem alicerçadas, as pessoas que exercem o poder estão bem firmes em seus lugares”.

Tradução de Paulo Migliacci



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