Começo esta coluna com uma confidência. Eu e meus colegas da equipe de jornalistas de ciência da Folha passamos as últimas semanas com o gosto amargo de cinzas na boca. Não havia como não ficar acabrunhado diante da destruição sem sentido do legado científico do país no incêndio do Museu Nacional (muita coisa aconteceu desde então, mas não, nós não esquecemos). Durante esse mesmo período de luto, porém, pesquisadores mostraram como planejar um futuro menos cinzento para um dos ecossistemas mais ricos e devastados do país.

Estou falando, é claro, da mata atlântica, cuja área original abriga 60% da população do Brasil (e, aliás, onde se gera 70% do Produto Interno Bruto da nação). Última porcentagem que você verá neste parágrafo: só 12% dessa floresta tropical ainda sobrevive, muitas vezes de forma espalhada, em fragmentos nanicos de alguns hectares.

E isso é uma péssima notícia, não apenas do ponto de vista de abraçadores de árvores românticos, mas também para a qualidade de vida —e o bolso— da maioria dos que ora me leem. Florestas são gigantescos sistemas produtores e purificadores de água, para começo de conversa, permitindo a infiltração adequada da chuva no lençol freático e o surgimento de nascentes que vão alimentar os rios que nos dão de beber.

Portanto, faz muito sentido que cientistas como Paulo Guilherme Molin, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), e Pedro Brancalion, da USP de Piracicaba, estejam preocupados com o potencial de regeneração florestal da mata atlântica.

Em novo estudo, publicado na revista científica Journal of Applied Ecology, eles investigaram a melhor maneira de conduzir essa regeneração nos 12,5 mil quilômetros quadrados da bacia do rio Piracicaba, uma área do estado de São Paulo habitada por mais de 3 milhões de pessoas. Se esse povo todo quiser continuar a beber água (sem falar em conviver com um clima minimamente decente ou ter acesso a solo fértil, entre outras coisinhas que a floresta entrega de graça), convém prestar atenção ao que eles escrevem.

Molin, Brancalion e outros colegas usaram dados de satélite para avaliar como a mata poderia se regenerar em três áreas bem diferentes da bacia do Piracicaba: uma com predomínio da agricultura mecanizada (basicamente cana-de-açúcar), outra em que reinam os pastos para criação de gado bovino de corte e uma terceira onde há maior presença de gado leiteiro e uma área florestada que já é relativamente maior desde o princípio.

A principal conclusão dos pesquisadores é que, mais do que fazer esforços heroicos para replantar milhões de árvores, em muitos casos vale a pena identificar áreas com alto potencial natural de regeneração e deixar os resquícios de mata fazerem o serviço pelos humanos. Isso fica claro examinando, pelas imagens de satélite, a reconstrução natural das florestas que já ocorreu na região entre 2000 e 2010 e extrapolando-a para o futuro.  

Se um local tiver inclinação de 10% ou mais, ficar a 200 m ou menos de distância de um rio ou lago e a até 100 m de um fragmento florestal, as condições são ideais —basta cercar a área e impedir que o gado pisoteie as mudas que naturalmente nascerão ali.

E, óbvio, seria mais barato —gastaríamos entre 40% e 20% menos para restaurar a mata. Como diz aquela frase famosa de “Jurassic Park”, a vida encontra um caminho —se a gente aprender a sair do caminho dela.  



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