O leitor já deve ter percebido que, das invenções mais recentes e bem-sucedidas de Satanás, os grupos de WhatsApp são as piores. Se, como diz a escritora Margaret Atwood, toda inovação tecnológica tem um lado bom, um lado ruim e um lado estúpido, o amaldiçoado “Zap” fez a balança pender decisivamente para o lado imbecil da equação.

Imbecil e perigoso, aliás —o que explica o conceito seguramente meio maluco por trás desta coluna.

Estamos todos carecas de saber que as pessoas repassam qualquer porcaria no WhatsApp. É, você também já encaminhou caca pelo aplicativo, não adianta querer negar, criatura.

No que diz respeito a questões científicas —não só elas, mas prefiro falar do que entendo, ao contrário do que as pessoas costumam fazer no “Zap”—, isso produz desinformação, pânico e pode custar vidas.

Lembro-me muito bem dos áudios estapafúrdios durante o auge da epidemia de zika, com alguém (se eu descubro quem é o desinfeliz, nem sei o que faço com ele) dizendo que crianças e idosos estariam morrendo às pencas por causa do vírus no Nordeste.

Será que existe um antivírus contra esse vírus (a propagação de fezes pelo aplicativo, quero dizer, não o zika)? É o que proponho que tentemos descobrir juntos.  

Sem mais delongas, aqui vai a mensagem que eu pediria que o mui nobre leitor repassasse aos seus contatos, como uma espécie de experimento social “do bem”:

“Não existe nenhuma supergripe matando gente no Brasil. Se você ouvir relatos sobre pessoas jovens e saudáveis morrendo por causa da doença, lembre-se de que a gripe normal já é uma grande vilã da saúde pública, levando até 500 mil pessoas à morte no mundo todo por ano. Alguns desses casos vão acabar sendo de gente com saúde. Gripe é coisa séria, e os cientistas monitoram novas formas do vírus o tempo todo, sempre avisando as autoridades. Se puder, não deixe de se vacinar. O autor desta mensagem é Reinaldo José Lopes (reinaldo.lopes@grupofolha.com.br), jornalista de ciência da Folha de S.Paulo com mais de 15 anos de experiência. Compartilhe com seus contatos, mas lembre-se: SEMPRE cheque quem é a fonte de uma informação, se a pessoa existe de verdade e se é confiável antes de passá-la adiante. Esta é uma campanha contra as notícias falsas sobre ciência.”

É, eu sei que a mensagem é meio comprida, talvez maior do que a capacidade média de atenção dos usuários de WhatsApp. Também sei que ela talvez não tenha potencial para viralizar porque vai justamente contra a tendência ao alarmismo apocalíptico que parece ser uma característica tão arraigada da psiquê do Homo sapiens (aquele que de sapiente muitas vezes não tem nada).

Desse ponto de vista, o aplicativo de fato parece criação do Demo por causa de sua opacidade para quem está de fora (não é como outras redes sociais que têm “primeiras páginas” públicas de muitos perfis) e pelo fato de que ele permite a fácil criação de grupos fechados de tamanho limitado, similares às redes de interação do mundo real (mas sem a indispensável conexão cara a cara, que muitas vezes exerce um efeito moderador).

Mas que tal tentar? Incríveis 95% dos brasileiros usam essa porcaria. Imagine o que a gente pode fazer se for possível disseminar informações corretas e atualizadas sobre ciência num meio como esse? A hora de ficar de braços cruzados já passou faz muito tempo.



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